quinta-feira, 6 de junho de 2013
Liberdade de Expressão???
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Para pastor presbiteriano, homossexualidade “não era um problema para Jesus”
domingo, 29 de novembro de 2009
Evangélico gay diz que a Rádio Melodia não tem o direito de manipular a opinião pública.
"Escrevemos e ligamos para a produção da Rádio requerendo nossa participação no debate, já que serão quatro debatedores para falar malda nossa igreja e nem um a favor, o que não se configura um debate,mas sim uma forma de estimular o preconceito religioso. Entretanto recebemos uma ligação da produção do programa informando que nos foi negada a participação, porque se trata de uma ordem diretada cúpula da rádio."
O E-MAIL
Prezados Srs.
Por mais que nossos irmãos em Cristo critiquem, ninguém, absolutamente ninguém pode nos privar do direito de manifestarmos nossa crença (isso enquanto a lei dos homens - segundo a Contituição), mas o que mais nos importa é referente à questão espiritual, essa a ninguém cabe odireito de julgar e condenar, a não ser o nosso Senhor Jesus Cristo. Vocês criticam o que não conhecem, vocês não conhecem o nosso ministério, apenas criticam. Sei que pra vocês isso pouco importa, mas centenas de pessoas estão tendo suas vidas restauradas, mudadas através do nosso ministério.
Muitas são as pessoas que chegam até a nossa igreja com suas vidas destruídas, sem perspectiva nenhuma de melhoras, doentes da alma e após um verdadeiro encontro com Deus são restauradas.
Como homossexual, cristão convertido e muito feliz afetivamente (sou casado com meu companheiro há 8 anos e fazemos a obra de Deus juntos) posso dizer que já nascemos assim, como a própria palavra diz, fomos constituidos por Deus desde o ventre de nossas mães e consequentemente, assim como nascem pessoas negras, brancas, destras, canhotas, de olhos claros, assim também nascemos homossexuais. Sei que vocês já estariam com alguns versículos prontos pra sengundo as suas interpretações, tentarem intimidar o meu direito de ser gay e cristão. Eu digo a vocês que, através de um homem ungido, cheio dapresença de Deus e que tem um chamado importantíssimo pra resgatar um povo que até então não era povo, existe uma nova realidade, nós homossexuais podemos sim ter uma vida de santidade, podemos sim termos intimidades com Deus... Ao contrário do que vocês pensam, temos um estudo aprofundado na palavra, inspirado pelo Espírito Santo e deautoria de nosso pastor presidente Marcos Gladstone que mostra o que há séculos vem acontecendo, esse estudo dentro da palavra dismistifica a interpretação tendenciosa e preconceituosa quanto à homossexualidade. Inclusive, senhores, esse material, assim como vídeos, testemunhos, estão disponíveis no site de nossa igreja, que acredito que deva ser bem conhecido e acessado pelos senhores. Creio eu que nenhum dos senhores se permitiram ainda a ir a um de nossos cultos, mas só se preocupam em criticar. Procurei neste email não discutir questões específicas da bíblia sobreo que vocês dizem ser condenável aos olhos de Deus, pois tem os conteúdo bíblico pra termos um debate democrático em relação a essa questão.
Acho interessante vocês convidarem o nosso pastor pra estar no debate, como disse, ele é um homem destemido e consciente da missão dele aqui neste mundo (levar o amor verdadeiro de Deus a todos)Vocês na chamada para o debate, dizem " será o final dos tempos?"...Eu diria que sim, pelo que podemos ver em nosso dia a dia, estamos realmente chegando no fim dos tempos. Como conhecedores e tementes à palavra de Deus, cremos nisso... Inclusive cremos que a palavra de Deus é bem clara quando diz que nenhum dos seus ficaria de fora, nenhuma de suas nações ficaria de fora.
Glória a Deus, sabemos que hoje existe uma porta para nós homossexuais sermos verdadeiramente cristãos e assim buscarmos dia a dia a nossa salvação e propagar oamor de Deus a todos.Temos consciência de que seremos criticados pelos demais irmãos de outras denominações, mas até o ministério do Senhor Jesus aqui na Terra foi criticado por fariseus, imaginem nós, uma nação que antesera somente massacrada e hoje existe uma parcela dela que veio prafazer a diferença nessa geração, que veio pra ser um referencial, pra quebrar cadeias, pra proclamar o nome do Senhor, pra mostrar que é possível ser cristão, não pela aprovação da sociedade, mas sim pela UNICA que nos interessa, a do nosso Senhor Jesus Cristo. Saibas, irmãos, que estaremos orando pra que Deus revele a vocês ainjustiça que vem fazendo. Cremos num Deus justo e verdadeiro, cremos que esse Deus que tanto vem fazendo por nós, é o mesmo que vocês buscam.
Creio, em nome de Jesus, que vocês ainda reconhecerão o nosso ministério como sendo um ministério pra resgatar das trevas um povoque até então era estigmatizado por condenação.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
A Epopéia de Guilgamech
A epopéia é gravada em doze tabuinhas de argila, que narra a história de Guilgamech, rei de Uruc, criado pelos deuses. Eles lhe conferiram beleza, inteligência, coragem, força... Era dois terços deus e um terço homem. Como o rei era mesmo o máximo entre seu povo, verdadeiramente onipotente, não foi difícil vestir-se de arrogância. Dono de um insaciável apetite sexual, era ele quem desvirginava as donzelas antes dos maridos.
O povo, não suportando mais os poderes ilimitados de seu rei, suplicou aos deuses a criação de um outro ser para rivalizar com Guilgamech. Assim nasceu Enkidu, por quem o rei de Uruc acabou se apaixonando. Quando Enquidu morreu, Guilgamech chorou sua morte como a de uma amante.
Tábua I
“Senhor da Terra, Ele via todas as coisas; os abismos da sapiência se escancaravam à frente dele, e nunca se viu homem como ele em força e beleza.” Grande caçador de leões, “agarra-os pela juba e os trespassa”.
Assim é apresentado, logo de início, o herói Guilgamech, que é dois terços divino e um terço homem. E o Ensi que cercou Uruk de poderosos muros e ali construiu um templo “que se ergue como uma montanha”, um imponente celeiro e um magnífico “palácio branco”.
“A sua palavra e o seu juízo deitam lei sobre a cidade, e seus súditos o observam com temor e admiração.”
Não obstante, este belíssimo e altíssimo é um tanto ativista demais, “nunca se detém” e quer que “a magnificência de Uruk resplenda sobre todas as outras cidades”. Em conseqüência impõe a todos, jovens e velhos, homens e mulheres, um trabalho sem cessar. E são sobretudo as mulheres que por fim elevam vibrantes protestos “aos grandes deuses, senhores de Uruk”. O deus Anu reconhece que seus lamentos são justos e encarrega a deusa criadora Aruru de plasmar um indivíduo que possa distrair o superzeloso Guilgamech, um ser que seja tão forte quanto ele, “mas que não seja um animal do deserto”.
Aruru toma um pouco de argila, molda-a, cospe em cima e surge “um herói animado do alento e do sangue de Ninib, deus da Guerra”.
Esta força da natureza se chama Enquidu e, à primeira vista, tem um aspecto que não é lá muito atraente. Hirsuto, “seus cabelos se alongam como o trigo”, veste-se com peles e come a grama junto com as gazelas; bebe com as manadas e se joga nos rios a brincar com os peixes. Toma-se pois o protetor de seus amigos animais, arrebenta as redes e inutiliza as armadilhas dos caçadores. Assim sendo, campo e deserto tomam-se uma espécie de Parque Nacional, fechado a qualquer atividade venatória.
Obviamente, os caçadores se cansam disto, até que um deles consegue perceber um dia, junto ao rio, aquele estranho indivíduo “que se assemelhava a um demônio dos montes”. Vai falar com o pai, que o aconselha a tomar emprestada do soberano uma bela moça, e mostrá-la nua, “a fim de que o homem se aposse de suas belas formas, expostas”. Assim, disse, tera alguma coisa diferente em que pensar.
O caçador vai ao Ensi, conta-lhe tudo sobre aquele cabeludo gigante, e como “e tremendo o seu aspecto”, tanto que ninguém ousa aproximar-se. Guilgamech lhe dá permissão de conduzir imediatamente “uma bela mulher” do sagrado templo de Ichtar. Depois de três dias, os dois chegam ao olho d’água. O caçador abandona a mulher ali e tudo se cumpre segundo as previsões: “Enquidu conheceu a mulher por seis dias e seis noites, e se uniu a ela com amor
Mas eis que “quando estava saciado com a opulenta beleza dela”, Enquidu percebe que seus amigos animais fogem dele. Maravilhado, volta um olhar interrogativo a companheira que, exteriorizando todas as artes da persuasão, lhe diz: “Enquidu, és belo como um deus; porque queres correr pelos campos como um animal selvagem? Vem comigo a Uruk, vem ao sagrado templo, ao esplêndido palácio de Guilgamech, o herói perfeito, possante como um touro, sem igual entre os homens”. Enquidu se deixa convencer: “Quero enfrentá-lo, quero desafiar em alta voz aquele forte, quero anunciar a toda Uruk que também eu sou forte”.
E segue a mulher, a qual, chegando à cidade, onde ambos são acolhidos com grandes festejos, o torna um pouco mais apresentável, colocando-lhe “um traje de festa”, e oferecendo-lhe depois pão e vinho. Uma vidente lhe vaticina o desafio com Guilgamech, cujos olhos “rebrilham como o Sol, e cuja grande estatura exibe músculos duros como o metal”.
Tábua II
Enquidu, bem limpinho e penteado, sai do templo e a sua descomunal estatura desperta a admiração da turba. Mas depois de uns poucos passos, coloca-se ao centro do portâb de entrada, impedindo a entrada de quem quer que seja. Os guardas tentam desalojá-lo, mas basta uma olhada sua para fazê-los bater em retirada.
E eis que vem Guilgamech para celebrar as sagradas núpcias de Ano Novo. Os dois se observam, Enquidu não se afasta e a luta é inevitável.
Guilgamech o agarra, ergue-o e o afasta da porta, mas a luta continua até que “o rei abraça seu adversário como se fosse uma mulher e o derruba, colocando-se sobre ele”. Depois o levanta e o arremessa aos pés da rainha-mãe. O povo o aclama, enquanto Enquidu lança um urrono desesperado. Levanta-se, “deixa cair os braços a seu lado e seus olhos se enchem de lágrimas”.
A rainha se comove, pega suas mãos e diz, benévola: “És meu filho e te gerei hoje mesmo; sou tua mãe, e este — indicando Guilgamech — é teu irmão”.
Enquidu, por sua vez, comovido, responde: “Mãe, nesta luta, encontrei um ir-mão”, ao que faz eco o rei: “Es meu irmão, luta agora ao meu lado!” E lhe propõe sua primeira empresa heróica. Muito longe, a custodiar a Floresta Sagrada dos cedros, que circunda a morada dos deuses, o deus Bel tinha colocado um temível guardião de nome Khumbaba, cuja voz “assemelha-se ao troar da tempestade; seu hálito faz agitar as ramagens, seu resfolegar provoca um tremendo trovejar”. Este guardião, porém, já há algum tempo permitia-se algumas liberdades e tinha assumido o hábito de sair do bosque para aterrorizar o povo, matando quem quer que se encontrasse em seu caminho: “Os fortes também caem sob suas mãos”.
“O coração — diz Guilgamech — me sugere enfrentá-lo e matá-lo.” Enquidu não deixa transparecer qualquer perplexidade, e decidem de imediato partirem juntos.
Tábua III
Entretanto, Enquidu tem uma terrível saudade de seus animais: se lamenta em altas vozes, até que subitamente, abandona a vida cômoda e desaparece nos campos. Guilgamech, profundamente entristecido, reúne a Assembléia dos Anciãos: “Estou triste, choro por Enquidu! De que me servem o machado, o dardo, a espada, o traje de festa? Não tenho mais alegria. Enquidu, meu dileto amigo, deixou-me e maldiz a mulher que o seduziu. Ele deveria repousar sobre ricos tecidos e habitar num palácio situado à minha esquerda; os grandes da terra deveriam beijar-lhe os pés, e todos os homens deveriam colocas-se a seu serviço. Quero que todo o meu povo leve de tudo para ele, enquanto que eu mesmo, coberto de uma pele de leão, irei procurá-lo por toda a planície”.
Enquidu, entrementes, está só e desesperado, amaldiçoando a mulher e o momento em que se deixou convencer a segui-la e “tornar-se estranho aos animais”. Mas Chamach, deus do Sol, o reprova, relembrando-lhe os benefícios recebidos daquela mulher “que te deu à mesa comidas e bebidas que só os reis recebem, fez-te dono do traje de festa e do cinto, propiciou-te a amizade do magnífico Guilgamech. O povo de Uruk está de luto por ti, e Guilgamech te procura por toda parte!”
A estas palavras, adoça-se o coração de Enquidu e quando aparece o amigo, resplandecente como o ouro”, segue-o. Mas a calmaria dura pouco: Enquidu conta a Guilgamech um horrível sonho. “O céu urrava e a terra lhe respondia, tremendo (. . .) Enfrentei um homem forte, de semblante escuro como a noite, de aspecto semelhante a uma repugnante hiena, mostrando os dentes; tinha asas poderosas e garras de abutre. Apanhou-me, fazendo-me afundar com todo o seu corpo numa terrível voragem, e me comprimia com o seu peso, tal como uma montanha”. No fundo do abismo, encontrou-se no limiar do “Reino de lrcalla, de onde ninguém que entra, sal”. Ordena-lhe o monstro: “Vai pela estrada da qual ninguém pode sair, entra na casa sem luz, onde os habitantes se alimentam de pó e lama, têm asas de morcego, são cobertos de plumas como o mocho, e residem nas trevas!”
Enqutdu adentra o Reino dos Mortos, onde ninguém mais leva a tiara real, e quem costumava sentar-se sobre o trono e dominar a terra, agora está humilhado; os grandes e os servos são todos iguais, e dominados por Erechquigal, rainha dos Infernos; a seus pés, uma escrivã registra os nomes na argila. Erechquigal levanta a cabeça e ordena: “Escreve-me também o nome dele”.
Guilgamech conforta o amigo, agora estremecido pelo sonho angustiante, faz o ritual de esconjuros “contra o maligno espírito da morte”, oferece ao deus Sol uma taça de mel “e deixou que o deus a lambesse”.
Tábua IV
Chamach, a quem muito agradou a oferenda, incita os dois a enfrentar sem piedade a Khumbaba, e Guilgamech, reunido o Conselho dos Nobres, parte com Enquidu, de quem a rainha se despede afetuosamente: “Enquidu, és a minha alegria; protege agora Guilgamech!”
Chegam à floresta de cedros e o primeiro com que se defrontam é um guarda:
“Vinde, adiantai-vos, para que eu possa dar vossos corpos de pasto aos abutres!”. Mas não obstante tenha sobre si “sete mantos enfeitiçados”, acaba sendo morto.
Enquidu logo exorta Guilgamech à prudência; já é tarde, e faz-se noite, é melhor acampar e esperar pela manhã. “Não sejas fraco, timorato e vil, ó amigo. Devemos continuar e depressa enfrentar Khumbaba. Já não matamos seu guarda? Não somos mestres na arte da guerra? Reforça tua confiança em Chamach e não mais sentirás medo ... .). Combateremos juntos (. . .); todos os países da terra cantarão em nosso louvor.” E prosseguiram o caminho.
Tábua V
Os dois heróis detêm-se, em silêncio, fascinados pela esplêndida floresta, estupefatos pela grandeza das árvores, das calmas alamedas, das flores odoríferas, e “viram a montanha dos cedros, morada dos deuses, e o sagrado templo de lrnini (Inanna)” em frente ao qual “os cedros se acumulavam, exuberantes”. Avançam durante horas, o sendeiro se faz cada vez mais íngreme “até que a noite caiu sobre o bosque, apareceram as estrelas e os dois heróis se deitaram para dormir”.
Novos íncubos agitam o sono de Enquidu. À aurora, retomam a marcha para o topo do monte e caminham durante “trinta horas”.
“A sagrada torre da deusa Irnini se erguia com nítido alvor” quando eis que, de improviso, depois de um furioso agitar das folhagens, apresenta-se perante ele a assustadora figura de Khumbaba “com patas iguais às de um leão, o corpo coberto de escamas de bronze, a cabeça eriçada de cornos de búfalo selvagem, com o membro viril e a cauda terminando em forma de cabeças de serpente”.
Guilgamech encomenda a alma a Chamach, e os dois lançam contra o monstro todas as suas flechas, “mas elas caíam inertes, sem feri-lo”. Khumbaba enterra suas garras em Enquidu, que, debatendo-se furiosamente, o faz cair. Guilgamech, fulmíneo, empunha o machado e o decapita. Seu corpo é arrastado para uma clareira, como pasto para os abutres, e “enfiada a cabeça de Khumbaba numa longa haste, carregaram-na em sinal de triunfo” .
Exultantes, sobem o monte, atingindo seu cimo. Aí, porém, são detidos pela peremptória voz de Irnini: “Nenhum mortal pode chegar ao alto do monte, sede dos deuses, pois quem viu a face dos deuses, deve morrer. Já cumprístes a vossa empresa, agora voltai, e dirigi vossos passos para Uruk”. Só restava obedecer e os nossos heróis tomaram o caminho do retorno “através dos precipícios e vias tortuosas, lutando com os leões e tirando-lhes a pele”.
E “quando vem o dia da Lua Cheia”, Guilgamech pisou no umbral de Uruk “trazendo, transfixada em sua lança, a cabeça de Khumbaba”.
Tábua VI
Tendo chegado triunfa]mente ao palácio, o rei “lavou suas armas, penteou seus cabelos, tirou as roupas sujas de sangue, vestiu uma roupa limpa e o manto real, e pôs em sua cabeça a coroa”.
Vendo-o em todo o seu esplendor, a deusa Ichtar “ardendo de desejo”, propõe lhe tomar-se sua amante, prometendo-lhe em troca riqueza e poder sem limites.
Mas Guilgamech a desdenha: “Desprezo o teu corpo cheio de fascínio, recuso o teu pão (. . .); as tuas artes são quentes, mas o teu coração é gelado. Onde está o amante que amarias para sempre? Ao teu jovem amante Tamuzu (Dumuzi), deus da Primavera, só reservaste o pranto, ano após ano; depois, arranjaste um jovem pastor, quebraste-lhe as asas e agora ele vaga em lágrimas pelos bosques (. . .) Passaste a um outro pastor e, com o bastão, fizeste um lobo. Hoje, os outros pastores o ameaçam e seus próprios cães o mordem”. Recorda-lhe enfim a fracassada tentativa com um certo Uchalanu que Ichtar convidou um dia para “comer a comida dos deuses”. Mas Uchalanu respondeu: “Que queres de mim? Minha mãe me preparou a comida, e eu a comi; por que queres que eu experimente manjaxes que me levariam à ruína e que se transformariam em cardos e bolotas?”
A deusa, furiosa, o transformara num animal da lama.
“Ora — conclui Guilgamech —, queres meu amor para reservar-me o mesmo tratamento.”
Ichtar, acometida de ira, sal pelos céus e pede vingança por este ultraje ao deus Anu, o qual deve admitir que Guilgamech exagerou um pouquinho, pelo que a deusa lhe pede que crie “um enorme touro que aterrorize Guilgamech”. E se nao for atendida, ameaça “golpear o deus Anu com terrores e assombros”, e para tanto descerá aos infernos, abrirá todas as suas portas, “até que todos os demôaios e mortos saiam e venham à terra; e os mortos já são muito mais numerosos que os vivos!” Anu, depois de tê-la advertido que este tipo de vingança acarretará sete anos de carestia, pergunta-lhe: “Há trigo suficiente nos celeiros? Há feno suficiente para o gado?”
Ichtar garante que tudo está em seu lugar. Anu então faz surgir “da montanha dos deuses um touro imenso e o envia a lJruk”, onde devasta os campos e arrasta algumas centenas de homens; até que Enquidu consegue agarrá-lo firmemente pela cauda, “e Guilgamech afunda a sua espada no peito do touro que cai, estertorando”.
Enquidu se congratula com o amigo: “Amigo, demos nova glória aos nossos nomes, agora que matamos o touro do céu!” Cumprida a empresa, os dois heróis se prosternam perante Chamach; repousam nos muros da cidade, do alto dos quais Ichtar, fora de si, lança as piores maldições contra Guilgamech. Enquidu então arranca uma coxa do touro e lança-a ao rosto da deusa, gritando: “Ah, pudesse eu tê-la entre as mãos! Faria contigo o que fiz com o touro e a enrolaria em suas tripas!”
Os dois, logo após, lavam suas armas no Eufrates e a nova aventura termina com grandes festej os.
Tábua VII
Enquidu continua a ter seus pesadelos e conta a Guilgamech um terrível sonho: uma águia, depois de te-lo agarrado, o levava sempre mais alto, e ao fim, quando toda a terra parecia “pequena como uma papa de farinha e o oceano, como uma vasilha”, amolecia a presa, fazendo-o cair. “Precipitei-me, e fiquei jazendo na terra com os ossos quebrados. Este foi o meu sonho e agora estou molhado de suor, por causa do susto.” Desta vez, Guilgamech adivinha o funesto presságio:
“Um espírito te aferrará com as suas garras; os deuses decidiram causar uma desgraça! Deita-te, pois tua testa arde” e, sentado à sua cabeceira, o assiste e o conforta por dias e dias.
Tábua VIII
O estado de Enquidu se agrava; “o seu peito se alçava silencioso e silencioso se abaixava”. O amigo, chorando, o invoca: “Enquidu, meu jovem amigo, onde está a tua força, onde está a tua voz? Onde está o meu Enquidu? Eras forte como um leão, veloz como uma gazela; te amava como a um irmão; todas as belas mulheres de Urnk te amavam; juntos matamos o touro celestial, e seu alento maléfico não pôde te afetar, mas agora os grandes deuses não querem perdoar a ofensa a Ichtar nem a morte do touro por eles enviado!”
Enquidu exala o último suspiro e agora Guilgamech, coberto o cadáver de seu amigo “como se fosse o de sua esposa”, desafoga livremente sua desesperada dor. “Urrou como um leão, urrou como uma leoa atingida por flechas, arrancou os cabelos e os esparramou à volta, rasgou as vestes e envergou uma empoeirada túnica de luto.” Lamenta o amigo querido por seis dias e seis noites, ao sétimo o sepulta e depois vaga sem conforto pelos campos. Encontra um caçador, o qual, estupefato com seu aspecto, lhe dirige a palavra: “Nobre Senhor, matastes o enfurecido guarda da floresta dos cedros, matastes até mesmo Khumbaba; matastes com as mãos os leões dos montes e vencestes o poderoso touro enviado pelo deus do Céu. Por que estão tão pálidas e emaciadas as vossas faces? Por que há tristeza em vosso semblante? Que coisa é que perturba o vosso ânimo e dobrou vossa alta estatura? Por que vosso coração está cheio de lamentos? Por que correis sem paz?”
Responde Guilgamech: “O amigo querido que era ligado ao meu coração, Enquidu, a pantera da planície, o meu amigo, o bravo companheiro das minhas aventuras, que dividiu comigo todos os sofrimentos, foi golpeado pelo destino de todo homem. Como posso calar minha dor? Quero gritar, para que todos ouçam! O amigo que me era tão caro, tornou-se pó; Enquidu, o meu amigo, tomou-se como argila. Deverei eu também jazer como ele, sem nunca mais ressurgir, por toda eternidade?”
Esta última pergunta propõe o tema da segunda parte da epopéia, totalmente diversa da primeira. Fecha-se o ciclo das aventuras heróicas e inicia-se o poema do herói lastimoso na vã e desesperada busca da imortalidade.
Guiigainech continua o pranto pela morte do amigo, mas também porque a idéia da morte não o deixa. Portanto decide-se a buscar “o potente Utnapichtim, que encontrou a vida eterna”.
Enceta a jornada, e depois de dias, pela manhã, vê destacar-se no horizonte uma alta montanha “denominada Machu, e composta de dois altos picos que sustentam o céu; entre os dois picos se abre a porta através da qual sai o Sol”. A porta é vigiada por dois gigantes’meio homens e meio escorpiões.
Um deles pergunta o porquê de seu triste aspecto e o objetivo de sua viagem. Guilgamech responde que quer ter com Utnapichtim, seu “antepassado que soube entrar para a Assembléia dos deuses, procurou e encontrou a vida; quero inteirogá-lo sobre o Destino e sobre a Vida”. Rebate o vigia: “O sendeiro que passa por entre estas montanhas não pode ser percorrido pelo pé dos mortais, ou de Guilgamech; ninguém jamais conseguiu franqueá-lo”,e lhe descreve brevemente o que o espera: uma obscura e escarpada garganta, que o Sol atravessa “quando ilumina os países e para onde retorna quando volta de sua viagem noturna pelo oceano do Céu (...) Atrás das montanhas se encontra o mar que circunda os paises da terra. Não podes percorrer o caminho do Sol, porque este conduz ao reino dos deuses (...). O teu antepassado Utnapschtim habita-o também lá em cima, perto da desembocadura da corrente, além das águas da Morte, mas não há barco que possa levar-te à outra margem”.
Guilgamech não se dá por vencido e o gigante, admirado com tanta coragem, lhe dá passagem, advertindo-o que deverá percorrer “uma garganta horrenda, completamente obscura, que dura dez horas duplas” e faz votos para que possa percorrê-la são e salvo. E Guilgamech adentra “pelo caminho do Sol”.
Tábua IX
“As trevas eram profundas e não havia o menor vislumbre de luz. Ele não conseguia distinguir nem o que estava atrás nem o que estava mais à frente”. Por fim, transcorridas as “dez horas duplas”, lobriga de longe um clarão: a garganta se abre, penetra um tênue ralo de Sol e, fma]mente, a luz. Perante Guilgamech se estendiam agora os esplêndidos “jardins dos deuses”; os frutos eram de rubi, pendiam magníficos cachos de uva, “uma outra árvore era coberta de lápis-lazúli. O herói ergue os braços ao Sol: “O meu caminho foi longo e fatigante! Tive de matar os animais da floresta, cobrir-me com suas peles, nutrir-me de suas cames! (.. .) Mostrai-me agora o caminho que conduz ao distante Utnapichtim, guia-me ao barqueiro que me levará a salvo além do Oceano do Mundo e das Àguas da Morte, a fim de que eu possa informar-me sobre a vida!” Chamach o admoesta: “Para onde corres, ó Guiigamech? Jamais encontrarás a vida que procuras!” Mas o herói lhe suplica, e Chamach lhe indica um caminho possível: “Procura Siduri-Sabitu, a sábia senhora da Montanha Celeste, ela está sentada sobre um trono no jardim dos deuses, junto ao Oceano, e custodia a Árvore da Vida. Ela poderá indicar-te o caminho para alcançar o distante Utnapichtim”.
Guilgamech retoma o caminho “através do maravilhoso jardim, onde as pedras preciosas são numerosas como alhures os cardos e as bolotas”.
Tábua X
O herói chega a Siduri-Sabitu. “Ele estava recoberto de peles de animais selvagens; a sua figura era assustadora, seu corpo era o de um deus, mas seu coração estava cheio de dor.” A deusa, não gostando nada do que via, trancou-se dentro de sua casa. Guilgamech ameaça arrombar a porta, e Siduri-Sabitu lhe pergunta então o porquê de seu aspecto tão macilento e o objetivo de sua longa viagem. À sua resposta, lhe repete: “Nunca encontrarás a vida que procuras”, e acrescenta:
“Quando os deuses criaram os homens, estabeleceram para eles a morte, e guardaram a vida para si”, e o aconselha com fervor a gozar a vida tal como ela é, que, no fundo, é bela, e voltar para Uruk, onde todos o amam e o exaltam.
“Basta! — interrompe-a Guilgamech. — Mostra-me o caminho que conduz ao distante Utuapichtim; se possível, atravessarei o mar, se não, caminharei ao longo do litoral.” Siduri-Sabitu o faz notar que, exceto pelo Sol, ninguém pode navegar pelas Águas da Morte, que se estendem perante aquela longínqua praia”. Mas naquele exato momento aporta o barqueiro de Utnapichtim, que tinha vindo procurar ervas e frutas no bosque. “Vai falar com ele; se for possível, atravessa o mar com ele; se não, volta para o lugar de onde vieste.”
Guilgamech entra no bosque e chama em alta voz o barqueiro, mas ninguém lhe responde. Furioso, arrebenta algumas caixas cheias de pedras que estavam na barca, e por fim encontra o homem, Ur Chanabi, e pede-lhe que o leve até seu patrão. Este observa que, tendo destruído as caixas, tornou isso impossível. De fato, estas, lançadas à água, serviam para ajudar na navegação pelas Águas da Morte. Mas sena posssvel aliviar o problema se Guilgamech, para substituir as pedras, abatesse “cento e vinte troncos” e, aparados, os embarcasse. O herói prontamente cumpre o novo trabalho e os dois, com aquela carga, atravessam “as ondas turbulentas e velejam rápidos como o relâmpago”. No terceiro dia, chegam às Aguas da Morte, e chegam às suas margens. Ur Chanabi ordena ao passageiro: “Toma o machado e enfia os troncos no fundo do mar, mas as Aguas da Morte não devem tocar tuas mãos, para que não morras”.
Quando todos os cento e vinte troncos foram usados, “impeliram a barca com aqueles paus”.
Utnapichtim, ao longe, percebe o desconhecido e pergunta, consigo mesmo:
“Por que desapareceram as caixas de pedras? Por que agora se encontra na minha barca alguém que não tinha permissão para entrar nela? Esse que está chegando não pode ser um mortal”. Perscruta melhor e dá-se conta que ele em tudo lhe é semelhante, vai ao seu encontro e o interpela: “Diz-me teu nome, sou Utnapichtim, aquele que encontrou a Vida”.
O rei se declara felicíssimo em conhecê-lo, por fim; e conta-lhe da sua dor, a travessia a fim de alcançá-lo e o escópo da visita: “Quero destruir os espíritos da morte, para que acabe a alegria deles! Ó Utnapichtim, fala-me como obter a vida eterna, tu que a obtiveste!”
“Deixa de lado os lamentos e a ira — responde Utnapichtim —, a sorte dos deuses é diversa da dos homens. Teu pai e tua mãe te criaram homem; mesmo que tua natureza seja dois terços divina, o terço de ti que é humano te impele rumo ao Destino dos homens. A morte põe termo a toda vida. Porventura são eternas as casas, os pactos, as heranças paternas? (...) Desde o início dos seus dias, fica estabelecido que toda coisa tenha fim: o natimorto e o morto, não se assemelham, assim? Não são idênticos os sinais da morte? (. . .) Os deuses estabelecem os dias da vida, mas não contam os da morte!”
Tábua XI
“Observando-te, Utnapichtim, vejo que não és maior nem mais alto que eu, e te assemelhas a mim como um pai ao filho. Também tu és um homem! Mas não tenho paz, fui criado para lutar; tu, ao invés, conseguiste subtrair-te à luta e quietamente repousas. Diz-me, pois, como pudeste entrar para a assembléia dos deuses e encontrar a vida?”
“Quero. desvelar-te, ó Gui]gamech, uma história oculta, um segredo dos deuses. Churrupak é uma cidade antiqUíssima, e por longo tempo os deuses lhe foram benignos, mas depois decidiram fazer descer sobre a terra um dilúvio. No conselho dos deuses estava também presente Ea (Enqui), o deus do Abismo, e ele confiou à minha casa, feita de canas, esta sentença dos deuses.” E narrou como Enqui o exortara a abandonar seus bens, salvar a vida e construir uma embarcação capaz de carregar a semente da vida de cada espécie. “Construa rápido o barco e leve-o no mar de águas doces, carregando-o com o que for necessário.”
“Preparei então madeira e piche, desenhei o plano do barco e nele desenhei vários sinais. Todo meu povo contribuiu na construção.”
Quando a nave ficou pronta, “carreguei nela tudo o que possuía: prata, ouro e sementes de vida de toda espécie; fiz entrar toda minha família; carreguei as bestas grandes e pequenas; ordenei, por fim, que tomassem lugar os artesões versados nas diversas artes”.
“Os espíritos das trevas verteram depois sobre a terra uma chuva torrencial; eu fiquei observando a tempestade, assustadora de se ver. Quando despontou a aurora, ergueram-se nuvens negras como corvos; os espíritos do mal estavam endiabrados, e toda luz se transformou nas trevas mais densas; soprava impetuoso o vento do meridião, as águas revoltas alcançaram os montes, desabando sobre os homens. O irmão não reconhecia mais o irmão; até mesmo os deuses tiveram medo do furacão e correram a refugiar-se sobre a Montanha Celeste de Anu, encolhendo-se como cães assustados. Ichtar, presa de agonia, gritava: ‘O belo país se transformou em lama pelo meu mau conselho; como pude sugerir tamanha maldade? Como pude pensar em exterminar a minha gente? Eis que agora a correnteza abate os homens como no furor da batalha (...) .
‘Todos os homens tomaram-se lama, a terra estava uniforme e deserta. Abri a janela do barco e a luz atingiu meu rosto; prosternei-me, depois sentei-me e chorei com lágrimas copiosas; observei aquele grande deserto de água, exclamei que todos os homens estavam mortos. Depois de doze horas duplas vi despontar no horizonte uma ilha: a minha nau estava sobre o monte Nissir. Ela ficou encalhada sobre o monte Nissir durante seis dias; no sétimo, tomei uma pomba e deixei-a partir, mas retornou, não encontrando nenhum lugar onde pousar. Tomei um corvo e o deixei partir; voou para longe, pois que as águas estavam baixando, comeu, esgaravatou a terra e não retornou. Então deixei que todos os animais saíssem e sacrifiquei um cordeiro; espargi alguns grãos sacrificiais sobre o topo do monte e queimei alguns ramos de cedro e mirto. Os deuses aspiraram o fumo que enchia de prazer as suas narinas e reuniram-se em torno do sacrifício como moscas.”
Os deuses reprovaram a Bel por ter suscitado toda aqueia devastação: se queria punir os homens por alguma ofensa, podia soltar sobre a terra alguns leões ferozes, ou monstros, ou provocar uma carestia, mas não destruir toda a humanidade. Bel, porém, de modo algum se arrependeu, mas ficou agastado ao ver aquela embarcação: “Quem é esse mortal que conseguiu escapar ao seu destino? Ninguém deve sobreviver ao meu juízo”. Mas Enqui vai sobre a nave e diz a Utnapichtim as seguintes palavras: “Até agora, Utnapichtim, eras um homem mortal; deste momento em diante, tu e tua mulher sereis semelhantes a nós e habitareis longe, perto do mar onde desembocam os rios”.
E foi aqui que Guilgamech veio a encontrálos.
Utnapichtim prossegue: “Mas que deus terá piedade de ti e te levará para junto dele, para que possas encontrar a vida que procuras?” E o desafia a ficar, como ele, seis dias e seis noites sem fechar os olhos.
Guilgamech, ao invés, esgotado, se senta e adormece de súbito, profundamente. Ao seu despertar, Utnapichtim o lava, veste, restitui-lhe beleza e vigor e faz com que Ur Chanabi o acompanhe.
Todavia, a mulher de Utnapichtim é tomada de pena pelo herói que depois de tantas tribulações volta de mãos vazias, sem ter encontrado nada do que procurava e lhe oferece uma possibilidade: existe uma planta milagrosa que cresce no fundo do mar e “que tem o aspecto de uma ameixeira”. Se conseguir pegá-la e alimentar-se dela encontrará a vida e a eterna juventude.
Guilgamech amarra duas grandes pedras às pernas, e deixa-se afundar no mar; encontra a planta, agarra-a, e emerge tendo na mão “a flor maravilhosa do mar”;
depois, dando gritos de alegria, diz a Ur Chanabi: “Eis a planta! Eis a planta que dá a vida! . Quero levá-la aos sólidos muros de Uruk, quero que comam dela todos os heróis, quero dividi-la com muitos outros! Esta planta se chama ‘de velho torna-se jovem’; quero comer dela e reaver toda a força da minha juventude!”
A barca navega por “vinte horas duplas” até dar numa pequena praia. Ali perto há um lago fresco e Guilgamech entra nele para restaurar-se. Mas eis que “uma serpente sentiu o perfume da planta miraculosa, aproximou-se, rastejante, e a devorou’ ‘ -
Guilgamech senta-se sobre a margem e irrompe num pranto desesperado. Volta a Uruk, levando consigo Ur Chanabi, a quem dá de presente um pedaço de terra.
Tábua XII
Mas não tem paz: consulta magos e adivinhos, quer ver o espírito de Enquidu, quer interrogá-lo sobre o destino dos mortos. O Sumo Sacerdote o adverte: “O Guilgamech, se queres ir ao Reino dos Mortos, é preciso que uses uma veste suja, não deves ungir-te com óleos perfumados, que atrairiam os espíritos malignos; não deves pousar na terra o teu arco, porque serias logo atormentado por aqueles que matastes; não deves levar o cetro, para não repelir os espíritos dos mortos; não deves calçar sandálias para que teus passos sejam silenciosos”.
O rei, vestido de trapos, dirige-se para “o grande deserto onde se abre o umbral do Reino dos Mortos”. Junto às portas dos infernos, grita furiosamente. O guardião, intimidado afinal abre a porta. Depois se cumpre o rito de despojar-se da indumentária, através das “sete portas duplas”, até que o herói se encontra nu perante Erechquigal, suplicando a ela que o deixasse ver Enquidu.
“Volta para o lugar de onde vieste, não podes ver quem está morto; ninguém te chamou.” Tristemente, Guilgamech refaz o caminho inverso, retoma suas vestes “e colocou-se junto às águas profundas, suplicando a Enqui, o sábio deus do Abismo” que lhe fizesse aparecer a sombra de Enquidu.
Enqui se dirige a Nergal, deus dos mortos: “Faz uma abertura no chão e conduz para o alto o espírito de Enquidu para que possa falar com Guilgamech, seu irmão”. Os dois heróis se reconhecem, mas precisam ficar à distància. Guilgamech pede ao amigo que lhe desvele a lei da terra dos mortos; a sombra de Enquidu “tremia com a resposta”.
“Não posso desvelar-te; se te falasse, sentar-te-ias para chorar.” Mas Guilgamech insiste e Enquidu lhe desvela a terrível verdade: “Vê agora! O amigo que te alegrava está devorado por vermes como um farrapo, Enquidu, o amigo que tua mão tocou, tornou-se como argila, está cheio de pó; tornou-se pó!”
E desaparece. Guilgamech retorna a Uruk, onde “o templo da Montanha Sacra" se erguia alto. O rei se estende para dormir e a morte o alcançou na esplêndida sala do seu palácio.
Fim.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Uniões entre pessoas do mesmo sexo na antiguidade
“Em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade tem sido um componente da vida humana”, escreveu William Naphy, diretor do colégio de Teologia, História e Filosofia da Universidade de Aberdeen, Reino Unido, em Born to Be Gay – História da Homossexualidade
As tribos das ilhas de Nova Guiné, Fiji e Salomão, no oceano Pacífico, cerca de 10 mil anos atrás já exercitavam algumas formas de homossexualidade ritual. Os melanésios acreditavam que o conhecimento sagrado só poderia ser transmitido por meio do coito entre duplas do mesmo sexo. No rito, um homem travestido representava um espírito dotado de grande alegria – e seus trejeitos não eram muito diferentes dos de um show de drag queens atual.
Um dos mais antigos e importantes conjuntos de leis do mundo, elaborado pelo imperador Hammurabi na antiga Mesopotâmia em cerca de 1750 a.C., contém alguns privilégios que deveriam ser dados aos prostitutos e às prostitutas que participavam dos cultos religiosos. Eles eram sagrados e tinham relações com os homens devotos dentro dos templos da Mesopotâmia, Fenícia, Egito, Sicília e Índia, entre outros lugares. Herdeiras do Código de Hammurabi, as leis hititas chegam a reconhecer uniões entre pessoas do mesmo sexo. E olha que isso foi há mais de 3 mil anos.
Na Grécia e na Roma da Antiguidade, era absolutamente normal um homem mais velho ter relações sexuais com um mais jovem. O filósofo grego Sócrates (469-399), adepto do amor homossexual, pregava que o coito anal era a melhor forma de inspiração – e o sexo heterossexual, por sua vez, servia apenas para procriar. Para a educação dos jovens atenienses, esperava-se que os adolescentes aceitassem a amizade e os laços de amor com homens mais velhos, para absorver suas virtudes e seus conhecimentos de filosofia. Após os 12 anos, desde que o garoto concordasse, transformava-se em um parceiro passivo até por volta dos 18 anos, com a aprovação de sua família. Normalmente, aos 25 tornava-se um homem – e aí esperava-se que assumisse o papel ativo.
Entre os romanos, os ideais amorosos eram equivalentes aos dos gregos. A pederastia (relação entre um homem adulto e um rapaz mais jovem) era encarada como um sentimento puro. No entanto, se a ordem fosse subvertida e um homem mais velho mantivesse relações sexuais com outro, estava estabelecida sua desgraça – os adultos passivos eram encarados com desprezo por toda a sociedade, a ponto de o sujeito ser impedido de exercer cargos públicos.
Boa parte do modo como os povos da Antiguidade encaravam o amor entre pessoas do mesmo sexo pode ser explicada – ou, ao menos, entendida – se levarmos em conta suas crenças. Na mitologia grega, romana ou entre os deuses hindus e babilônios, por exemplo, a homossexualidade existia. Muitos deuses antigos não têm sexo definido. Alguns, como o popularíssimo hindu Ganesh, da fortuna, teriam até mesmo nascido de uma relação entre duas divindades femininas. Não é nada difícil perceber que, na Antiguidade, o sexo não tinha como objetivo exclusivo a procriação. Isso começou a mudar, porém, com o advento do católicismo romano.
O judaísmo já pregava que as relações sexuais tinham como único fim a máxima exigida por Deus: “Crescei e multiplicai-vos”. Até o início do século 4, essa idéia, porém, ficou restrita à comunidade judaica. Nessa época, o imperador romano Constantino converteu-se à fé católica – e, na seqüência, o cristianismo tornou-se obrigatório no maior império do mundo. Como o sexo passou a ser encarado apenas como forma de gerar filhos, a homossexualidade virou algo antinatural. Data de 390, do reinado de Teodósio, o Grande, o primeiro registro de um castigo corporal aplicado em gays.
O primeiro texto de lei proibindo sem reservas a homossexualidade foi promulgado mais tarde, em 533, pelo imperador cristão Justiniano. Ele vinculou todas as relações homossexuais ao adultério – para o qual se previa a pena de morte. Mais tarde, em 538 e 544, outras leis obrigavam os homossexuais a arrepender-se de seus pecados e fazer penitência. O nascimento e a expansão do islamismo, a partir do século 7, junto com a força cristã, reforçaram a teoria do sexo para procriação.
Durante muito tempo, até meados do século 14, no entanto, embora a fé condenasse os prazeres da carne, na prática os costumes permaneciam os mesmos. A Igreja viu-se, a partir daí, diante de uma série de crises. Os católicos assistiram horrorizados à conversão ao protestantismo de diversas pessoas após a Reforma de Lutero. E, com o humanismo renascentista, os valores clássicos – e, assim, o gosto dos antigos pela forma masculina – voltaram à tona. Pintores, escritores, dramaturgos e poetas celebravam o amor entre homens. Além disso, entre a nobreza, que costumava ditar moda, a homossexualidade sempre correu solta. E, o mais importante, sem censura alguma – ficaram notórios os casos homossexuais de monarcas como o inglês Ricardo Coração de Leão (1157-1199).
No curto intervalo entre 1347 e 1351, a peste negra assolou a Europa e matou 25 milhões de pessoas. Como ninguém sabia a causa da doença, a especulação ultrapassava os limites da saúde pública e alcançava os costumes. O “pecado” em que viviam os homens passou a ser apontado como a causa dela e de diversas outras catástrofes, como fomes e guerras. Judeus, hereges e homossexuais tornaram-se a causa dos males da sociedade. Não havia outra solução a não ser a erradicação desses grupos. Medidas enérgicas foram tomadas. Em Florença, por exemplo, a homossexualidade foi proibida em 1432, com a criação dos Ufficiali di Notte (agentes da noite). O resultado? Setenta anos de perseguição aos homens que mantinham relações com outros. Entre 1432 e 1502, mais de 17 mil foram incriminados e 3 mil condenados por sodomia (homossexualidade), numa população de 40 mil habitantes.
Leis duras foram estabelecidas em vários outros países europeus. Na Inglaterra, o século 19 começou com o enforcamento de vários cidadãos acusados de sodomia. E, entre 1800 e 1834, 80 homens foram mortos. Apenas em 1861 o país aboliu a pena de morte para os atos de sodomia, substituindo-a por uma pena de dez anos de trabalhos forçados.
Outro tratamento nada usual foi destinado tanto à homossexualidade quanto à ninfomania feminina: a lobotomia. Desenvolvida pelo neurocirurgião português António Egas Moniz, que chegou a ganhar o prêmio Nobel de Medicina de 1949 por isso, ela consistia em uma técnica cirúrgica que cortava um pedaço do cérebro dos doentes psiquiátricos, mais precisamente nervos do córtex pré-frontal. Na Suécia, 3 mil gays foram lobotomizados. Na Dinamarca, 3500 – a última cirurgia foi em 1981. Nos Estados Unidos, cidadãos portadores de “disfunções sexuais” lobotomizados chegaram às dezenas de milhares. O tratamento médico era empregado porque a homossexualidade passou a ser vista como uma doença, uma espécie de defeito genético.
A preocupação científica com os gays começou no século 19. A expressão “homossexual” foi criada em 1848, pelo psicólogo alemão Karoly Maria Benkert. Sua definição para o termo: “Além do impulso sexual normal dos homens e das mulheres, a natureza, do seu modo soberano, dotou à nascença certos indivíduos masculinos e femininos do impulso homossexual(...). Esse impulso cria de antemão uma aversão direta ao sexo oposto”. Em 1897, o inglês Havelock Ellis publicou o primeiro livro médico sobre homossexualismo em inglês, Sexual Inversion (“Inversão sexual”, inédito no Brasil). Como muitos da época, ele defendia a idéia de que a homossexualidade era congênita e hereditária. A opinião científica, médica e psiquiátrica vigente era de que a homossexualidade era uma doença resultante de anormalidade genética associada a problemas mentais na família. A teoria, junto das idéias emergentes sobre pureza racial e eugenismo nos anos 1930, torna fácil entender por que a lobotomia foi indicada para os homossexuais.
A situação só começou a mudar no fim do século passado, quando a discussão passou a se libertar de estigmas. Em 1979, a Associação Americana de Psiquiatria finalmente tirou a homossexualidade de sua lista oficial de doenças mentais. Na mesma época, o advento da aids teve um resultado ambíguo para os homossexuais. Embora tenha ressuscitado o preconceito, já que a doença foi associada aos gays a princípio, também fez com que muitos deles viessem à tona, sem medo de mostrar a cara, para reivindicar seus direitos. Durante os anos 80 e 90, a maioria dos países desenvolvidos descriminalizou a homossexualidade e proibiu a discriminação contra gays e lésbicas. Em 2004, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos invalidou todas as leis estaduais que ainda proibiam a sodomia.
“Em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade tem sido um componente da vida humana”, escreveu William Naphy, diretor do colégio de Teologia, História e Filosofia da Universidade de Aberdeen, Reino Unido, em Born to Be Gay – História da Homossexualidade. “Nesse sentido, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há dúvida de que a homossexualidade é e sempre foi menos comum do que a heterossexualidade. No entanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da espécie humana.” Para muitos, ainda hoje sair do armário continua sendo uma questão de tempo. As portas, no entanto, vêm sendo abertas desde a Antiguidade.
Créditos
Texto de: Humberto Rodrigues e Cláudia de Castro Lima
Adaptações: Alexandre Mello.
domingo, 5 de julho de 2009
Posicionamento do Conselho da Igreja referente ao Ministério Eclesiástico e homossexualidade:
Cremos, a partir do testemunho do Evangelho, que Deus ama as pessoas sem distinção. Está claro, também, que tanto as pessoas que se sentem atraídas sexualmente para o mesmo sexo como as que se sentem atraídas para o sexo oposto precisam da graça de Deus para serem salvas. Nenhuma pessoa é salva por causa do seu comportamento sexual. O apóstolo Paulo escreve:"...Não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por causa da graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus."
(Rm 3.23)
Todos nós, sejamos pessoas heterossexuais ou homossexuais, somos justificados tão somente pela graça de Deus e pela fé que o Espírito Santo em nós opera.
Estamos conscientes e lembramos que a sexualidade faz parte da boa criação de Deus, constituindo-se numa maravilhosa dádiva divina, pela qual devemos ser sempre gratos a Deus, vivendo-a também em responsabilidade diante de Deus e do nosso próximo. Afirmamos ainda que a fé em Jesus Cristo, que queremos tornar concreta na convivência na igreja, nos leva a viver nossa sexualidade em respeito ao matrimônio e ao próximo, conforme os ensinamentos da Palavra de Deus. Por isso, em nossa conduta sexual, evitamos tudo quanto possa levar nosso irmão ou nossa irmã a tropeçar ou cair em pecado. É nesse sentido que Lutero explica o 6. Mandamento, no Catecismo Menor : "Devemos temer e amar a Deus e viver uma vida casta e decente em palavras e ações e cada qual ame e honre seu consorte."
No tocante à homossexualidade, há na atualidade em muitas igrejas um intenso debate quanto a sua natureza e quanto à correta interpretação bíblica a seu respeito. Não há entre os especialistas um consenso absoluto nem na ciência quanto à natureza da homossexualidade, nem na interpretação bíblica daquelas passagens que fazem alusão à homossexualidade. Tampouco há na IECLB ainda esse consenso. Ao contrário, as posições são, por vezes, frontalmente opostas. Esse fato requer da Igreja discernimento, não juízos, enquanto ela segue auscultando perseverantemente a Palavra de Deus. Acima de tudo, deve haver uma prática sensibilidade pastoral, tanto para com as pessoas homossexuais quanto para com as famílias e as comunidades, em cujo meio essas pessoas vivem. Há nesse particular muito sofrimento, ao qual a igreja deve sua atenção espiritual e diaconal. De modo algum devem as pessoas homossexuais ser discriminadas ou afastadas do convívio na comunidade de fé. A palavra de Deus é juízo e graça para todas as pessoas, tanto as homossexuais quanto heterossexuais. Em todas as situações e para com todas as pessoas, deve prevalecer o amor, que é o maior dos dons (1Co 13).
Sabemos que o Ministério Eclesiástico Ordenado, instituído para pregar o evangelho e administrar os sacramentos, exige daquelas pessoas que o exercem um cuidado especial no comportamento sexual, para que as suas atitudes nesta área não se tornem escândalo e empecilho para os membros da igreja. Isso vale igualmente para as pessoas heterossexuais. Ao mesmo tempo, observamos que a eficácia da pregação do Evangelho depende também da aceitação do pregador e da pregadora e do respeito que as pessoas têm por ele ou ela. Um obreiro ou um obreira que por sua maneira de ser ou de agir afronta os padrões éticos da comunidade ou cujo comportamento sexual divide a comunidade dificilmente poderá realizar um trabalho pastoral proveitoso.
Não negamos que as pessoas homossexuais, que vivem a sua condição sem causar escândalo, podem realizar um trabalho abençoado na comunidade, ao colocarem a serviço do Evangelho os dons que Deus lhes deu. Mas constatamos também que, no momento atual da Igreja, não há condições de uma pessoa homossexual praticante assumir o exercício público do ministério eclesiástico na IECLB.
(Aprovado pelo Conselho da Igreja em sua reunião de 27 a 29/04/2001.
Publicado no Boletim Informativo da IECLB 173 de 28/06/01
