domingo, 11 de outubro de 2009

EVANGELHO SEGUNDO BARTOLOMEU

Jerônimo e Epifânio citam o Evangelho de Bartolomeu, onde se registra a conversa de Bartolomeu e Cristo com Belial, começando após a Ressurreição. Adão, o Diabo, o Inferno, Enoch e Elias são mencionados ao longo da narrativa, além de Maria comentar com os apóstolos detalhes da Concepção. Bastante significativo também é o trecho onde Belial comenta sua Queda.


EVANGELHO DE BARTOLOMEU


Depois que Nosso Senhor Jesus Cristo ressuscitou de entre os mortos, acercou-se dele Bartolomeu e abordou-o desta maneira:

— Desvela-nos, Senhor, os mistérios dos céus.

Jesus respondeu-lhe:

— Se não me despojar deste corpo carnal não os poderei desvelar.

Bartolomeu, pois, acercando-se do Senhor, disse-lhe:

—Tenho algo a dizer-lhe, Senhor.

Jesus, por sua vez, respondeu:

— Já sei o que me vais dizer. Dize-me, pois, o que quiseres. Pergunta e eu te darei a razão.

Bartolomeu, então, falou:

— Quando ias no caminho da cruz, eu te segui de longe. E te vi a ti, dependurado no lenho, e os anjos que, descendo dos céus, te adoraram. Ao sobrevirem as trevas e eu estava a tudo contemplando. Eu vi como desapareceste da cruz e só pude ouvir os lamentos e o ranger de dentes que se produziram subitamente das entranhas da terra. Dize-me, Senhor, onde foste depois da cruz.

Jesus, então, respondeu desta forma:

— Feliz de ti, Bartolomeu, meu amado, porque te foi dado contemplar este mistério. Agora podes perguntar-me qualquer coisa que a ti ocorra, porque tudo dar-te-ei eu a conhecer. Quando desapareci da cruz, desci aos Infernos para dali tirar Adão e a todos que com ele se encontravam, cedendo às suplicas do arcanjo Gabriel.

Então disse Bartolomeu:

— E o que significa aquela voz que se ouviu?

Responde-lhe Jesus:

— Era a voz do Tártaro que dizia a Belial: a meu modo de ver, Deus se fez presente aqui. Quando desci, pois, com meus anjos ao Inferno para romper os ferrolhos e as portas de bronze, dizia ele ao Diabo: parece-me que é como se Deus tivesse vindo à terra. E os anjos dirigiram seus clamores às potestades, dizendo: levantai, ó príncipes, as portas e fazei correr as cortinas eternas, porque o Reino da Glória vai descer à terra. E o Inferno disse: quem é esse Rei da Glória que vem do céu a nós? Mas quando já havia descido quinhentos passos, o Inferno encheu-se de turbação e disse: parece-me que é Deus que baixa à terra, pois ouço a voz do Altíssimo e não o posso agüentar. E o Diabo respondeu: não percas o ânimo, Inferno; recobra teu vigor, que Deus não desce à terra. Quando voltei a baixar outros quinhentos passos, os anjos e potestades exclamaram: alçai as portas ao vosso Reino e elevai as cortinas eternas, pois es que está para entrar o Rei da Glória. Disse de novo o Inferno: ai de mim! Já sinto o sopro de Deus. E disse o Diabo ao Inferno: para que me assustas, Inferno? Se somente é um profeta que tem algo semelhante com Deus ... Apanhemo-lo e levemo-lo à presença desses que crêem que está subindo ao céu. Mas replicou o Inferno: e quem é entre os profetas? Informa-me. É, por acaso, Enoch, o escritor mui verdadeiro? Mas Deus não lhe permite baixar à terra antes de seis mil anos. Acaso te referes a Elias, o vingador? Mas este não poderá descer até o final do mundo. Que farei? Para nossa perdição, é chegado o fim de tudo, pois aqui tenho escrito em minha mão o número dos anos. Belial disse ao Tártaro: não te perturbes. Assegura bem teus poderes e reforça os ferrolhos. Acredita-me, Deus não baixa à terra. Responde o Inferno: não posso ouvir tuas belas palavras. Sinto que se me arrebenta o ventre e minhas entranhas enchem-se de aflição. Outra coisa não pode ser: Deus apresentou-se aqui. Ai de mim! Aonde irei esconder-me de seu rosto, da sua força do grande Rei? Deixa-me que me esconda em tuas entranhas, pois fui criado antes de ti. Naquele preciso momento, entrei. Eu o flagelei e o atei com correntes que não se rompem. Depois fiz sair a todos os Patriarcas e voltei novamente para a cruz.

— Dize-me, Senhor — disse-lhe Bartolomeu. — Quem era aquele homem de talhe gigantesco a quem os anjos levavam em suas mãos?

Jesus respondeu:

— Aquele era Adão, o primeiro homem que foi criado, a quem fiz descer do céu à terra. E eu lhe disse: por ti e por teus descendentes fui pregado na cruz. Ele, ao ouvir isso, deu um suspiro e disse: assim, rendo-me a ti, Senhor.

De novo disse Bartolomeu:

— Vi também os anjos que subiam diante de Adão e que entoavam hinos, mas um destes, o mais esbelto de todos, não queria subir. Tinha em suas mãos uma espada de fogo e fazia sinais somente a ti. Os demais rogavam que ele subisse ao céu, mas ele não queria. Quando, porém, tu o mandaste subir, vi uma chama que saia de suas mãos e que chegava à cidade de Jerusalém.

Disse Jesus:

— Era um dos anjos encarregados de vingar o trono de Deus. E estava suplicando a mim. A chama que viste sair de suas mãos feriu o edifício da sinagoga dos judeus para dar testemunho de mim, por terem eles me sacrificado.

Quando falou isso, disse aos apóstolos:

— Esperai-me neste lugar, porque hoje se oferece um sacrifício no paraíso e ali hei de estar para recebê-los.

Falou Bartolomeu:

— Qual é o sacrifício que se oferece hoje no paraíso?

Jesus respondeu:

— As almas dos justos, que saíram do corpo, vão entrar hoje no Éden e, se eu não estiver lá presente, não poderão entrar.

Bartolomeu continuou:

— Quantas almas saem diariamente deste mundo?

Disse-lhe Jesus:

— Trinta mil.—

Insistiu Bartolomeu:

— Senhor, quando te encontravas entre nós ensinando-nos tua palavra, recebia sacrifícios no paraíso?

— Respondeu-lhe Jesus: Em verdade te digo eu, meu amado, que, quando me encontrava entre vós ensinando-vos a palavra, estava simultaneamente sentado junto de meu Pai.

Disse-lhe Bartolomeu:

— Quantas almas nascem diariamente no mundo?

Responde-lhe Jesus:

— Uma só a mais do que as que saem do mundo.

Dizendo isto, deu-lhes a paz e desapareceu no meio deles.

Estavam os apóstolos em um lugar chamado Chiltura, com Maria, a Mãe de Jesus Cristo. Bartolomeu, acercando-se de Pedro, André e João, disse-lhes:

— Por que não pedimos à cheia de graça que nos diga como concebeu ao Senhor e como pôde carregar em seu seio e dar à luz o que não pôde ser gestado?

Eles vacilaram em perguntar-lhe.

Disse Bartolomeu a Pedro:

— Tu, como corifeu e nosso mestre que és, acerca-te e pergunta-lhe.

Mas, ao ver todos vacilantes e em desacordo, Bartolomeu acercou-se dela e disse:

— Deus te salve, Tabernáculo do Altísimo; aqui viemos todos os apóstolos a perguntar-te como concebeste ao que é incompreensível, e como carregaste em teu seio aquele que não pôde ser gestado, ou como, enfim, deste à luz tanta grandeza.

Maria respondeu:

— Não me interrogueis acerca deste mistério. Se começar a falar-vos dele, sairá fogo de minha boca e consumirá toda a terra.

Eles insistiram e Maria, não querendo dar-lhes ouvidos, disse:

— Oremos.—

Os apóstolos puseram-se de pé atrás de Maria. Esta disse a Pedro:

— E tu, Pedro, que és chefe e grande pilar, estás de pé atrás de nós? Pois não disse o Senhor que a cabeça do varão é Cristo e a da mulher é o varão?’

Eles replicaram:

— O Senhor plantou sua tenda em ti e em tua pessoa houve por bem ser contido. Tu deves ser nossa guia na oração.

Maria, então, disse-lhes:

— Vós sois estrelas brilhantes do céu. Vós sois os que devem orar.

Disseram eles:

— Tu deves orar, pois que sois a Mãe do Rei Celestial.

Maria colocou-se diante deles e elevando as mãos aos céus começou a dizer:

— Ó Deus, tu que és o Grande, o Sapientíssimo, o Rei dos séculos, inexplicável, inefável, aquele que com uma palavra deu consistência às magnitudes siderais, aquele que fundamentou em afinada harmonia a excelsitude do firmamento, aquele que separou a obscuridade tenebrosa da luz, aquele que alicerçou em um mesmo lugar os mananciais das águas; tu que deste base à terra, tu que não podendo ser contido nos sete céus, te dignaste a ser contido em mim sem dor alguma, sendo Verbo Perfeito do Pai, por quem todas as coisas foram feitas; da glória, Senhor, a teu magnífico nome, manda-me falar na presença de teus santos apóstolos.

Terminada a oração, disse:

— Sentemo-nos no chão e vem tu, Pedro, que és o chefe. Senta-te à minha direita e apoia com tua esquerda meu braço. Tu, André faz o mesmo do lado esquerdo. Tu, João, que és virgem, segura meu peito. E tu, Bartolomeu, põe-te de joelhos atrás de mim e apóia minhas costas para que, ao começar falar, meus ossos não se desarticulem.

Quando fizeram isso, começou ela a falar:

— Estando eu no templo de Deus, aonde recebia alimento das mãos de um anjo, apareceu-me certo dia uma figura que me pareceu ser angélica. Mas seu semblante era indescritível, e não levava nas mãos nem o pão nem o cálice, como o anjo que anteriormente tinha vindo a mim. Eis que de repente, rasgou-se o véu do templo e sobreveio um grande terremoto. Joguei-me por terra, não podendo suportar o semblante do anjo, mas ele estendeu-me sua mão e levantou-me. Olhei para o céu e vi uma nuvem de orvalho que aspergiu-me da cabeça aos pés. Então ele enxugou-me com o seu manto e disse-me: salve, cheia de graça, cálice da eleita. Deu, então, um golpe com sua mão direita e apareceu um pão muito grande, que colocou sobre o altar do templo. Comeu em primeiro lugar e em seguida deu-o a mim também. Deu outro golpe com a ourela esquerda de sua túnica e apareceu um cálice muito grande e cheio de vinho. Bebeu em primeiro lugar e em seguida deu-o a mim também. E meus olhos viram um cálice transbordante e um pão. Disse-me, então: ao cabo de três anos, eu te dirigirei novamente minha palavra e conceberás um filho pelo qual será salva toda a criação. Tu és o cálice do mundo. A paz esteja contigo, minha amada, e minha paz te acompanhará sempre. Após isto, desapareceu de minha presença, ficando o templo como estava anteriormente.

Ao terminar de falar, começou a sair fogo de sua boca. Quando o mundo estava para ser destruído, apareceu o Senhor que disse a Maria:

— Não desveles este mistério, porque se o fizerdes no dia de hoje sofrerá a criação inteira um cataclismo.

Os apóstolos, consternados, temeram que o Senhor pudesse irar-se contra eles.

O Senhor caminhou com eles até o Monte Moria e se sentou no meio deles. Como tinham medo, hesitavam em perguntar-lhe. Jesus incitou-os:

— Perguntai-me o que quiserdes, pois dentro de sete dias partirei para o meu Pai e já não estarei visível a vós nesta forma.

Eles, vacilantes, disseram:

— Permite-nos ver o abismo, como nos prometeste.

Respondeu Jesus:

— Melhor seria para vós não verdes o abismo; mas, se o queres, segui-me e o vereis.

Ele os conduziu ao local chamado Cherudik, cujo significado é lugar de verdade, e fez um sinal aos anjos do Ocidente. A terra abriu-se como um livro e o abismo apareceu.

Ao vê-lo, os apóstolos prostraram-se em terra, mas o Senhor os ergueu dizendo:

— Não vos dizia, há pouco, que não vos faria bem verdes o abismo?’

Jesus tomou-os de novo e pôs-se a caminho do monte das Oliveiras. Pedro disse a Maria:

— Oh tu, cheia de graça, roga ao senhor que nos revele os arcanjos celestiais.

Maria respondeu a Pedro:

— Oh tu, pedra escolhida por acaso não prometeu ele fundar sua Igreja sobre ti?

Pedro insistiu:

— A ti, que és um amplo tabernáculo, cabe perguntar.

Disse Maria:

— Tu és a imagem de Adão e este não foi formado da mesma maneira que Eva. Observa o sol e vê que, tal qual Adão, ele se avantaja em brilho aos demais astros. Observa também a lua e vê como está enodoada pela transgressão de Eva. Porque pôs Adão ao oriente e Eva ao Ocidente, ordenando a ambos que ofereçam a face mutuamente.

Quando chegaram ao cimo do monte o Senhor afastou-se um pouco deles, e Pedro

disse a Maria:

— Tu és aquela que desfez a infração de Eva, transformando-a de vergonha em regozijo.

Quando Jesus retornou, disse-lhe Bartolomeu:

— Senhor, mostra-nos o inimigo dos homens para que vejamos quem é e quais são suas obras, já que nem mesmo de ti se apiedou, fazendo-te pender do patíbulo.

Jesus, fixando nele seu olhar, disse-lhe:

— Teu coração é duro. Não te é dado ver isso que pedes.

Então, Bartolomeu, todo agitado, caiu aos pés de Jesus, dizendo:

— Jesus Cristo, chama inextinguível, criador da luz eterna, tu que hás dado a graça universal a todos os que te amam e que nos hás outorgado por meio da Virgem Maria o fulgor perene da tua presença neste mundo, concede-nos o nosso desejo.

Quando Bartolomeu acaba de falar, o Senhor ergueu-se dizendo:

— Vejo que é teu desejo ver o adversário dos homens. Mas lembra-te que, ao fitá-lo, não apenas tu mas também os demais apóstolos e Maria caireis por terra e ficareis como mortos.

Mas todos lhe disseram:

— Senhor, vejamo-lo.

Então fê-los descer do monte das Oliveiras. E, havendo lançado um olhar enfurecido aos anjos que custodiavam o Tártaro, ordenou a Micael que fizesse soar a trombeta fortemente. Quando este o fez, Belial subiu aprisionado por 6 064 anjos e atado com correntes de fogo.

O dragão tinha de altura mil e seiscentos côvados e de largura, quarenta. Seu rosto era como uma centelha e seus olhos, tenebrosos. Do seu nariz saía uma fumaça mal-cheirosa e sua boca era como a face de um precipício.

Ao vê-lo, os apóstolos caíram por terra sobre os rostos e ficaram como que mortos. Jesus acercou-se deles, ergueu-os e infundiu-lhes ânimo.

Disse a Bartolomeu:

— Pisa com teu próprio pé sua cerviz e pergunta-lhe quais foram suas obras até agora e como engana os homens.

Jesus estava de pé com os demais apóstolos. Bartolomeu, temeroso, ergueu a voz e disse:

— Bendito seja desde agora e para sempre o nome de teu reino imortal.

Quando ele acabou de dizer isso, Jesus o exortou de novo:

— Anda, pisa a cerviz de Belial.

Bartolomeu caminhou apressadamente para Belial e pisou-lhe o pescoço, deixando-o a tremer.

Bartolomeu fugiu assustado, dizendo:

— Deixa-me pegar a borda de tuas vestes para que me atreva a aproximar-me dele.

Jesus respondeu-lhe:

— Não podes tocar a fímbria das minhas vestes porque não são as mesma que eu tinha antes de ser crucificado.

Disse-lhe Bartolomeu:

— Tenho medo, Senhor, de que, assim como não se compadeceu dos anjos, da mesma maneira me esmague também a mim.

Respondeu Jesus:

— Mas por acaso não se acertaram todas as coisas graças à minha palavra e à inteligência de meu Pai? A Salomão se submeteram os espíritos. Vai tu, pois, em meu nome, e pergunta-lhe o que quiseres.

Ao fazer Bartolomeu o sinal da cruz e orar a Jesus, irrompeu um incêndio e as vestes do apóstolo foram tomadas pelas chamas.

Disse-lhe então Jesus de novo:

— Pisa, como te disse, na cerviz, de maneira que possas perguntar-lhe qual é o seu poder.

Bartolomeu, pois, se foi e pisou-lhe a cerviz, que trazia oculta até as orelhas, dizendo-lhe:

— Dizei-me quem és tu e qual é teu nome.

Bartolomeu, afrouxou-lhe um pouco as ligaduras e lhe disse:

— Conta tudo quanto tens feito.

Respondeu Belial:

— A princípio me chamava Satanail, que quer dizer mensageiro de Deus, Mas, desde que não reconheci a imagem de Deus, meu nome foi mudado para Satanás, que quer dizer anjo guardião do tártaro.

Bartolomeu falou de novo:

— Conta tudo sem nada ocultar.

Ele respondeu:

— Juro-te pela glória de Deus que, ainda que quisesse ocultá-lo, ser-me-ia impossível. Está aqui presente aquele que me acusa. E se me fosse possível vos faria desaparecer a todos da mesma maneira que o fiz com aquele que pregou para vós. Também fui chamado primeiro anjo porque, quando Deus fez o céu e a terra, apanhou um punhado de fogo e formou-me a mim primeiro e o segundo foi Micael, e o terceiro Gabriel, e o quarto Rafael, e o quinto Uriel, o sexto Xathsnael e assim outros seis mil anjos, cujos nomes me é impossível pronunciar, pois são os lictores de Deus e me flagelam sete vezes a cada dia e sete vezes a cada noite. Não me deixam um momento e são os encarregados de minar minhas forças. Os anjos vingadores são estes que estão diante do trono de Deus. Eles foram criados primeiro. Depois destes foi criada a multidão dos anjos: no primeiro céu há cem miríades; no segundo, cem miríades; no terceiro, cem miríades; no quarto, cem miríades; no quinto, cem miríades, no sexto, cem miríades; no sétimo, cem miríades. Fora do âmbito dos sete céus está o primeiro firmamento, onde residem as potestades que exercem sua atividade sobre o homem. Há também outros quatro anjos: Um é Bóreas, cujo nome é Vroil Cherum, tem na mão uma vara de fogo e neutraliza a força que a umidade exerce sobre a terra, para que esta não chegue a secar. Outro anjo está no Aquilon e seu nome é Elvisthá. Etalfatha tem a ser cargo o Aquilon. E ambos, ele e Mauch, que está na Bóreas, mantêm em suas mãos tochas incendiadas e varas de fogo para neutralizar o frio, o frio dos ventos, de maneira que a terra não se resseque e o mundo não pereça. Cedor cuida do Austro, para que o sol não perturbe a terra, pois Levenior apaga a chama que sai da boca daquele, para que a terra não seja abrasada. Há outro anjo que exerce domínio sobre o mar e reduz o empuxo das ondas. O mais não estou a revelar.

Insistiu Bartolomeu:

— Anda dize-me, malfeitor e mentiroso, ladrão desde o berço, cheio de amargura, engano, inveja e astúcia, velho réptil, trapaceiro, lobo rapace, como te arrumas para induzir os homens a deixar o Deus vivo, criador de todas as coisas, que fez o céu e a terra e tudo que neles está contido? Pois és sempre inimigo do gênero humano.

Disse o Anticristo:

— Dir-te-ei. Es aqui uma roda que sobe do abismo e tem sete facas de fogo. A primeira delas tem doze canais.

Perguntou-lhe Bartolomeu:

— Quem está nas facas?

Respondeu o Anticristo:

— No canal ígneo da primeira faca ficam os inclinados ao sortilégio, à adivinhação e à arte de encantamento e também os que neles crêem e o buscam, já que por malícia de seu coração buscaram adivinhações falsas. No segundo canal de fogo vão os blasfemos, que maldizem de Deus, de seu próximo e das Escrituras. Também ficam ai os feiticeiros e os que os buscam e lhes dão crédito. Entre os meus encontram-se também os suicidas, os que se lançam à água, ou se enforcam, ou se ferem com a espada. Todos esses estarão comigo. No terceiro canal vão os homicidas, os que se entregam à idolatria e os que se deixam dominar pela avareza ou pela inveja, que foi o que me arrojou do céu à terra. Nos demais canais vão os perjuros, os soberbos, os ladrões, os que desprezam os peregrinos, os que não dão esmolas, os que não ajudam os encarcerados, os caluniadores, os que não amam o próximo e os demais pecadores que não buscam a Deus ou o servem debilmente. A todos esses eu os submeto ao meu arbítrio.

Tornou, então, Bartolomeu:

— Dize-me, diabo mentiroso e insincero! Fazes tu essas coisas pessoalmente ou por intermédio de teus iguais?

Respondeu-lhe o Anticristo:

—Oh se eu pudesse sair e fazer essas coisas por mim mesmo! Em três dias destruiria o mundo inteiro. Desgraçadamente, porém, nem eu nem nenhum dos que foram arrojados juntamente comigo podemos sair. Temos, todavia, outros ministros mais fracos que, por sua vez, atraem outros colegas ao quais emprestamos nossa vestimentas e mandamos semear insídias que enredem as almas dos homens com muita suavidade, afagando-as, para que se deixem dominar pela embriaguez, a avareza, a blasfêmia, o homicídio, o furto, a fornicação, a apostasia, a idolatria, o abandono da Igreja, o desprezo da Cruz, o falso testemunho, enfim, tudo o que Deus abomina. Isso é o que nós fazemos. A uns nós os deitamos ao fogo. A outros, nós os lançamos das árvores para que se afoguem. A uns rompemos pés e mãos e a outros lhes arrancamos os olhos. Estas e outras coisas são o que fazemos. Oferecemos ouro e prata e tudo mais que é cobiçável no mundo e àqueles que não conseguimos que pequem despertos fazemo-los pecar adormecidos. Também direi os nomes dos anjos de Deus que nos são contrários. Um deles chama-se Mermeoth, que é o que domina as tempestades. Meus satélites o conjuram e ele lhe dá permissão para que habitem onde queiram; mas ao voltar se incendeiam. Há outros cinqüenta anjos que têm debaixo do seu poder o raio. Quando algum espírito, dentre os nossos, quiser sair pelo mar ou pela terra, esses anjos desferem contra ele uma descarga de pedra. Com isso ateiam o fogo e fazem fender as rochas e as árvore. E quando conseguem dar conosco nos perseguem, obedecendo ao mandato daquele a quem servem. Graças a esse mandato, tu podes exercer poder sobre mim, pelo que me vejo obrigado, muito a meu pesar, a revelar te o segredo e as coisas que não pensava dizer-te.

Continuou Bartolomeu:

— Que tens feito e o que continuas fazendo ainda? Revela-me, Satanás!

Este respondeu:

— Tinha pensado não confessar-te todo o segredo, mas, por aquele que preside ao Universo, cuja cruz me lançou ao cativeiro, não posso ocultar-te nada.

Disse o Senhor Jesus a Bartolomeu:

— Afrouxa-lhes as ligaduras e ordena-lhe que retorne a seu lugar até a vinda do Senhor. Quanto ao mais, já me encarregarei eu mesmo de revelar-vos. Porque é necessário nascer de novo para que aqueles que passaram pela prova possam entrar no Reino dos céus, de onde foi expulso este inimigo por sua soberba, juntamente com aqueles de cujo conselho se servia.

Após isso, disse o apóstolo Bartolomeu ao Anticristo:

— Volta condenado e inimigo dos homens, ao abismo até a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual há de vir julgar os vivos e mortos e ao mundo inteiro por meio do fogo e a condenar-te a ti e a todos os teus semelhantes. Não tentes daqui em diante continuar praticando isso que foste obrigado a revelar.

Satanás, lançando vozes misturadas com rugidos e gemidos, disse:

— Ai de mim, que tenho me servido de mulheres para enganar a tantos e acabei por ser burlado por uma virgem! Agora vejo-me aferrolhado e atado com cadeias de fogo pelo seu filho e estou ardendo de péssima maneira. Ó virgindade, que estás sempre contra mim! Ainda não se passaram os sete mil anos. como, pois, me vi condenado a confessar as coisas que acabo de dizer?

O apóstolo Bartolomeu, admirando a audácia do inimigo e confiando no poder do salvador, disse a Satã:

— Dize-me, imundíssimo demônio, a causa pela qual foste banido do mais alto do céu. Pois prometeste revelar-me tudo.

Respondeu o Diabo:

— Quando Deus se propôs a formar Adão, pai dos homens, à sua imagem, ordenou a quatro anjos que trouxessem terra das quatro partes do globo e água dos quatro rios do paraíso. Eu estava no mundo naquela ocasião e o homem passou a ser um animal vivente nos quatros rincões da terra onde eu estava. Então Deus o abençoou porque era sua imagem. Depois vieram render-lhe suas homenagens Micael, Gabriel e Uriel. Quando voltei ao mundo, disse-me o arcanjo Micael: adora essa figura que Deus fez segundo sua vontade. Eu me dei conta de que a criatura havia sido feita de barro e disse: eu fui feito de fogo e água e antes do que este. Eu não adoro o barro da terra. De novo me disse Micael: adora-o, antes que o Senhor se aborreça contigo. Eu repliquei: o Senhor não se irritará comigo. Eu vou colocar meu trono contra o dele. Então Deus enfureceu-se comigo, mandou abrir as comportas do céu e me arrojou à terra. Depois que fui expulso, perguntou o Senhor aos demais anjos que estavam às minhas ordens se se dispunham a render-se diante da obra que havia feito com suas mãos e eles disseram: assim como vimos que nosso chefe não dobrou sua cerviz, da mesma maneira não adoraremos um ser inferior a nós. Naquele momento mesmo foram eles expulsos como eu. Ficamos adormecidos durante um período de quarenta anos. Ao despertar, percebi que dormiam os que estavam abaixo de mim e os despertei, seguindo meu capricho. Depois discuti com eles uma forma de lograr o homem por cuja causa fui expulso do céu. Tomada a resolução, descobri como podia seduzi-lo. Tomei em minhas mãos umas folhas de figueira, enxuguei com elas o suor do meu peito e das minhas axilas e atirei-as ao rio. Eva, então, ao beber daquela água, conheceu o desejo carnal e o ofereceu ao marido. A ambos pareceu doce o sabor e não deram conta do amargo de haverem prevaricado. Se não houvessem bebido dessa água, jamais poderia eu enredá-los, pois outro meio eu não tinha para poder superá-los senão esse.

O apóstolo Bartolomeu pôs-se a orar, dizendo :

— Oh, Senhor Jesus cristo! Ordena-lhe que entre no Inferno porque se mostra insolente comigo.

Disse Jesus Cristo a Satã:

—Vai, desce ao abismo e fica ali até minha chegada.

No mesmo instante o Diabo desapareceu.

Bartolomeu, caindo aos pés de Nosso Senhor Jesus Cristo, começou a dizer, banhado em lágrimas:

— Abba! Pai! Tu que continuas sendo único e glorioso Verbo do Pai, por que foram feitas todas as coisas; tu, a quem não te puderam conter os sete céus e que tiveste por habitar o seio de uma Virgem; a quem a Virgem gerou e deu à luz sem dor; tu, Senhor, elegeste aquela a quem verdadeiramente pudeste chamar mãe, rainha e escrava. Mãe, porque por ela te dignaste descer e dela tomaste carne mortal. E rainha porque a constituíste rainha das virgens. Tu que chamas os quatro rios e eles obedecem tuas ordens e se apressam a servi-te. O primeiro, o rio dos Filósofos, para a unidade da Igreja e da Fé, que foi revelada no mundo. O segundo, o Geon, porque foi feito da terra, ou também pelos dois testamentos. O terceiro, o tigre, porque aos que cremos no Pai, no Filho e no Espirito Santo, Deus único por quem foram feitas todas as coisas no céu e na terra, nos foi revelada a Trindade sempiterna, que está nos céus. O quarto, o Eufrates, porque tu te dignaste saciar toda alma vivente por meio do banho da regeneração, que representava a imagem dos Evangelhos que correm por toda a órbita da Terra e que te dignaste anunciar por teus servos, para que, por meio da confissão e da fé, sejam salvos todos os que crêem em teu nome grande e terrível e em teus santos Evangelhos, de maneira que possam alcançar a vida que ainda não possuem.

Continuou Bartolomeu:

— É lícito revelar estas coisas a todos os homens.

Disse-lhe Jesus:

— Pode dá-las a conhecer a todos que sejam crentes e observem este mistério que acabo de desvendar-vos. Pois entre os gentios há alguns que são idólatras, ébrios, fornicadores, maldosos, feiticeiros, malvados, que seguem as artimanhas do inimigo e que odeiam o próximo. Todos esses não são dignos de ouvir esse mistério. Mas são dignos de ouvi-lo todos os que guardam meus mandamentos, os que recebem em si as palavras de Vida eterna que não têm fim, e todos os que têm fim, e todos os que têm parte nos céus com os Santos, justos e fiéis no reino do meu Pai. Todos aquele que se hajam conservado imunes ao erro da iniquidade e hajam seguindo o caminho da salvação e da justiça, devem ouvir este mistério. E tu, Bartolomeu, és feliz, juntamente a tua geração.

Bartolomeu, ao escrever todas essas coisas que ouviu dos lábios de Nosso Senhor Jesus Cristo, mostrou toda sua alegria no rosto e bendisse o Pai, o Filho e o Espirito Santo, dizendo:

— Glória a Ti, Senhor, redentor dos pecadores, vida dos justo, amante da castidade.

O Senhor disse, então, batendo no peito:

— Eu, sou bom, manso e benigno, misericordioso e clemente, forte e justo, admirável e santo, médico e defensor de órfãos e viúvas, remunerador dos justos e fiéis, juiz de vivos e mortos, luz de luz e resplendor da claridade, consolador dos atribulados e cooperador dos pupilos; Alegrai-vos comigo, amigos meus, e recebei meu presente. Hoje vou dar-vos um dom celeste. A todos os que em mim tenham depositado suas aspiração e sua fé, e a vós, estou galardoando com a vida eterna.

Bartolomeu e os demais apóstolos puseram-se a glorificar o Senhor Jesus, dizendo:

— Glória a ti, pai dos céus, rei da vida eterna, foco de luz inextinguível, sol radiante e resplendor da claridade perpétua, reis dos reis, senhor dos senhores. A ti seja dada a magnificência, a glória, o império, o reino, a honra e o poder, juntamente com o Pai e o Espirito Santo. Bendito seja o Senhor Deus de Israel porque nos visitou e redimiu seu povo da mão de seus inimigos e usou conosco de misericórdia e justiça. Louvai a Nosso Senhor Jesus Cristo todas as nações e crede que ele é o juiz de vivos e mortos e o salvador dos fiéis. O qual vive e reina, juntamente com o Pai e o Espirito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.

EPÍSTOLA DE BARNABÉ

Encontrada nos manuscritos no século passado, no Sinaítico, por Tischendorf, em 1859, e no Gerusolemitano, por Bryennios, em 1875, esta carta não nos fornece o nome de seu autor, nem a data e o local de composição.

Foi Clemente de Alexandria quem deu origem à tradição que atribui a autoria desta carta a Barnabé, companheiro e colaborador de São Paulo. Em Stromates 5,63,1-6 e no fragmento Hypotyposes mencionado por Eusébio em História Eclesiástica II,1,4, Clemente diz: “A Tiago, o Justo, a João e a Pedro, o Senhor, após sua ressurreição, transmitiu a gnose, estes a transmitiram aos outros apóstolos e os outros apóstolos aos 70, dos quais um era Barnabé”.

EPÍSTOLA DE BARNABÉ

Introdução

CAPÍTULO 1

Saudação

Filhos e filhas, eu vos saúdo na paz, em nome do Senhor que nos amou.

A fé dos destinatários Grandes e ricos são os decretos de Deus a vosso respeito. Acima de tudo, eu me alegro imensamente pelos vossos espíritos felizes e gloriosos, pois dele recebestes a semente plantada em vós mesmos, a graça do dom espiritual. Por isso, eu me alegro mais na esperança de me salvar, porque verdadeiramente vejo em vós que o Espírito da fonte abundante do Senhor foi derramado sobre vós. Em vosso caso, foi isso que me chamou a atenção ao vê-los, o que eu tanto desejava.

Intenções do autor

Estou convencido e intimamente persuadido disso, porque conversei muito convosco. O Senhor caminhou comigo no caminho da justiça e eu também me sinto impulsionado a amar-vos mais do que à minha própria vida, pois a fé e o amor que habitam em vós são grandes e fundados sobre a esperança da vida dele. Pensei que, se eu me preocupasse em participar-vos aquilo que recebi, eu teria recompensa por ter servido a espíritos como os vossos. Esforcei-me então para vos enviar estas poucas linhas, para que, além de vossa fé, tenhais também o conhecimento perfeito. Os ensinamentos do Senhor são três: a esperança da vida, começo e fim da nossa fé; a justiça, começo e fim do julgamento; o amor, testemunho pleno da alegria e contentamento das obras realizadas na justiça. Com efeito, por meio dos profetas, o Senhor nos fez conhecer o passado e o presente, e nos fez saborear antecipadamente o futuro. Vendo que uma e outra coisa se realizam conforme ele falou, devemos progredir no seu temor, de maneira mais rica e mais elevada. 8 Quanto a mim, não é como mestre, mas como um de vós, que vos preparei umas poucas coisas. Através delas, vocês se alegrarão nas circunstâncias presentes.


CAPÍTULO 2 : O culto que Deus quer

Introdução

Como os dias são maus e é aquele que exerce o poder, devemos, para o nosso próprio bem, procurar as decisões do Senhor. Os auxiliares da nossa fé são o temor e a perseverança, e nossos companheiros de luta são a paciência e o autocontrole. Se essas virtudes permanecem puras diante do Senhor, a sabedoria, a inteligência, a ciência e o conhecimento virão regozijar-se com elas.

Os sacrifícios

De fato, foi-nos mostrado, mediante todos os profetas, que Deus não tem necessidade de sacrifícios, nem de holocaustos, e nem de ofertas. Em certa ocasião, ele diz: "Que me importa a multidão de vossos sacrifícios?" diz o Senhor. "Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de cordeiros não sangue de touros e de bodes, e nem que venhais vos apresentar diante de mim. Quem pediu essas coisas de vossas mãos? Não continueis a pisar em meu átrio. Se ofereceis flor de farinha, é em vão; vosso incenso para mim é abominação. Não suporto vossas neomênias e vossos sábados." Ele rejeitou

essas coisas, para que a lei nova de nosso Senhor Jesus Cristo, que é sem o jugo da necessidade, não precise de oferta preparada por homens. Ele ainda lhes disse: "Por acaso, ordenei a vossos pais, ao saírem do Egito, que me oferecessem holocaustos? Pelo contrário, eis o que lhes ordenei: Que nenhum de vós guarde em seu coração rancor contra o próximo e que não ame o juramento falso." Devemos, portanto, compreender, pois não somos sem inteligência, o desígnio de nosso Pai em sua bondade, pois ele se dirige a nós, desejando que procuremos o modo de nos aproximar dele, sem nos extraviar, como aqueles homens. Eis, portanto, o que ele nos diz: "O sacrifício para Deus é um coração contrito; o perfume de suave odor para o Senhor é o coração que glorifica o seu Criador." Irmãos, devemos, portanto, cuidar de nossa salvação, para que o maligno não introduza em nós o erro, e nos atire, como pedra de funda, para longe da nossa vida.

CAPÍTULO 3

O jejum

A respeito disso, falou-lhes ainda, "Com que finalidade jejuais para mim", diz o Senhor, "como se ouve hoje aos gritos a vossa voz? Não é esse jejum que escolhi", diz o Senhor, "não o homem que humilha a si mesmo. Nem quando dobrais vosso pescoço como um círculo, nem quando vos cobris de pano de saco e cinza, não chameis isso de jejum agradável." Para nós, porém, ele diz: "Eis o jejum que eu escolhi", diz o Senhor: "Desata todas as amarras da injustiça; desfaz as cordas dos contratos iníquos; envia os oprimidos em liberdade; rasga toda escritura injusta; reparte teu pão com os famintos; se vês alguém nu, veste-o; conduz para a tua casa os desabrigados; se vês algum pobre, não o desprezes; não te afastes dos membros de tua família. Então tua luz romperá pela manhã, tuas vestes rapidamente resplandecerão, a justiça irá à tua frente e a glória de Deus te envolverá. Então outra vez gritarás, e Deus te ouvirá. Ao falar, ele te dirá: Eis-me aqui! Isso, se renunciares a tecer amarras, a levantar a mão, a murmurar, e se deres de coração o teu pão ao faminto e tiveres compaixão da pessoa necessitada." Por isso, irmãos, o paciente (Deus), prevendo que o povo, que ele preparou através do seu Amado, acreditaria com simplicidade, nos antecipou todas essas coisas, para que nós, como prosélitos, não nos arrebentássemos contra a lei deles.

CAPÍTULO 4

Vigilância

Exortação geral

É preciso, portanto, que examinemos com grande atenção a situação presente, para procurar o que nos pode salvar. Fujamos, pois, radicalmente de todas as obras iníquas, para que as obras iníquas jamais se apoderem de nós. Odiemos o erro do mundo presente, para que sejamos amados no mundo futuro. Não demos à nossa alma a liberdade, de modo que ela não tenha poder de correr com os maus e pecadores, a fim de que não nos tornemos semelhantes a eles.

Iminência do fim

O máximo do escândalo se aproxima, conforme está escrito, como diz Henoc . Com efeito, é por isso que o Senhor abreviou os tempos e os dias, a fim de que seu Amado chegue mais depressa à herança. Assim diz o profeta: "Dez reis reinarão sobre a terra e, depois disso, surgirá um pequeno rei que humilhará três reis de uma só vez." Sobre isso, Daniel diz algo semelhante: "Vi a quarta besta, maligna, forte e mais terrível do que todas as bestas do mar. Dela brotaram dez chifres, e desses saiu um pequeno chifre, como broto. Este, de uma só vez, humilhou três dos chifres grandes." Deveis, portanto, compreender.

A Aliança tem exigências

Além disso, peço- vos insistentemente, eu que sou um e vós e vos amo a todos e a cada um em particular mais do que a .mim mesmo: tomai cuidado para não ficardes como certas- pessoas, que acumulam pecados, dizendo que a Aliança está garantida para nós. Claro que era é nossa. Eles (os judeus) a perderam definitivamente, embora Moisés já a tivesse recebido. De fato, a Escritura diz: "Moisés jejuou na montanha durante quarenta dias e quarenta noites, e depois recebeu do Senhor a Aliança, as tábuas de pedra escritas pelo dedo da mão do Senhor." Eles, porém, a perderam, por se terem voltado para os ídolos. Com efeito, assim disse o Senhor: "Moisés, Moisés, desce depressa, pois

teu povo pecou, aqueles que fizeste sair da terra do Egito." Moisés compreendeu, e jogou as duas tábuas de suas mãos. A Aliança deles foi rompida, para que a de Jesus, o Amado, fosse selada em nossos corações pela esperança da fé que nele temos. Querendo escrever muitas coisas, não como mestre, mas como convém a quem ama, não deixando perder nada do que possuímos, apliquei-me a escrever, como vosso humilde servidor. Estejamos atentos nestes últimos dias! Nada adiantará todo o tempo de nossa vida e de nossa fé, se agora, neste tempo de impiedade e na iminência dos escândalos, não resistirmos, como convém a filhos de Deus. A fim de que a Treva não se infiltre em nós e às escondidas, fujamos de toda vaidade e odiemos completamente as obras do mau caminho. Não vos isoleis, dobrando-vos sobre vós mesmos, como se já estivésseis justificados, mas reuni-vos, para procurar juntos o vosso bem comum. De fato, a Escritura diz: "Ai daqueles que se crêem inteligentes e que são sábios diante de si mesmos!" Tornemo-nos espirituais, tornemo-nos um templo perfeito para Deus. Quanto nos for possível, apliquemo-nos ao temor de Deus e combatamos para observar seus mandamentos, a fim de nos alegrarmos em suas disposições. O Senhor julgará o mundo com imparcialidade; cada um receberá segundo o que fez. Se for bom, sua justiça o precederá; se for mau, diante dele irá o salário do mal. 13. Tomemos cuidado para não ficarmos tranqüilos como chamados, adormecendo sobre nossos pecados, de modo que o príncipe do mal se apodere de nós e nos afaste do reino do Senhor. Meus irmãos, compreendei ainda o seguinte: quando vedes que, depois de tantos sinais e prodígios acontecidos em Israel, assim mesmo eles foram abandonados, tomemos cuidado, como está escrito, para que não sejamos encontrados "muitos chamados, mas poucos escolhidos."


CAPÍTULO 5

Sofrimento do Senhor

O Senhor sofreu para purificar-nos de nossos pecados

O Senhor suportou entregar sua própria carne à destruição, para que fôssemos purificados pelo perdão dos pecados, isto é, pela aspersão feita com seu sangue. A respeito dele, a Escritura diz o seguinte sobre Israel e sobre nós: "Ele foi ferido por causa de nossas iniqüidades e maltratado por causa de nossos pecados, e nós fomos curados por sua chaga. Foi conduzido como ovelha ao matadouro e, como cordeiro, ficou mudo diante do tosquiador."

Responsabilidade do homem

Precisamos, portanto, multiplicar nossos agradeci mentos ao Senhor, porque ele nos fez conhecer as coisas passadas, tornou-nos sábios no presente e não estamos sem inteligência para as coisas futuras. A Escritura diz: "Não se estendem injustamente as redes para os pássaros." Isso quer dizer que, com razão, se perderá o homem que, tendo conhecimento do caminho da justiça, toma entretanto o caminho das trevas.

O Senhor sofreu para cumprir a promessa

Ainda o seguinte, meus irmãos: "Se o Senhor suportou sofrer por nós, embora fosse o Senhor do mundo inteiro, a quem Deus disse desde a criação do mundo: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança', como pode ele suportar sofrer pela mão dos homens? Aprendei. Os profetas, que tinham a graça dele, profetizaram a seu respeito. E ele afim de destruir a morte e mostrar a ressurreição dos mortos, teve que se encarnar e sofrer, afim de cumprir a promessa feita aos pais e preparar para si o povo novo e demonstrar, durante sua estada na terra, que era ele mesmo que julgaria, depois de ter realizado a ressurreição.



O Senhor sofreu na carne para que os pecadores pudessem vê-lo

Por fim, embora ele tivesse ensinado a Israel e realizado tão grandes prodígios e sinais, eles não foram levados por sua pregação a amá-lo acima de tudo. Porém, quando ele escolheu seus próprios apóstolos, que iriam anunciar o seu Evangelho, homens cujo pecado ultrapassava a medida, foi para mostrar que ele não tinha vindo chamar os justos, e sim os pecadores. Então ele manifestou que era Filho de Deus. Com efeito, se não se tivesse encarnado, como os homens poderiam ter sido salvos ao vê-lo, uma vez que eles não podem levantar os olhos para olhar de frente os raios do sol, que todavia um dia deixará de existir e que é tão-somente obra de suas mãos?


O Senhor sofreu para levar ao máximo o pecado de Israel

Se o Filho de Deus se encarnou, foi para levar ao máximo os pecados daqueles que tinham perseguido mortalmente os profetas dele. E por isso que ele suportou. De fato, Deus diz que é deles que vem a ferida de sua carne: "Quando ferirem o seu pastor, então as ovelhas do rebanho perecerão." Foi ele, porém, que quis sofrer desse modo. Com efeito, era preciso que ele sofresse sobre o madeiro, pois o profeta diz a seu respeito: "Poupa à minha vida à espada." E "transpassa com cravo a minha carne, porque uma assembléia de malfeitores se levantou contra mim." E diz ainda: "Eis que ofereci minhas costas aos açoites e minha face para as bofetadas. Contudo, mantive o meu rosto como pedra dura."


CAPÍTULO 6


Vitória pascal

O que diz ele, quando cumpriu o mandamento? "Quem é que me julga? Coloque-se diante de mim. Ou quem quer ser declarado justo diante de mim? Que se aproxime do servo do Senhor. Ai de vós! Porque todos vós envelhecereis como veste e a traça vos roerá." E o profeta continua, uma vez que ele foi colocado como sólida pedra para esmagar: "Eis que colocarei nos alicerces de Sião uma pedra de grande valor, escolhida, angular e preciosa." O que diz em seguida? "Aquele que nela crer, viverá para sempre." Será que a nossa esperança está numa pedra? De modo nenhum. Mas foi o Senhor que

tornou forte a sua carne. Com efeito, ele diz: "Ele me tornou como pedra dura". O profeta continua: "A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a cabeça de ângulo." E diz ainda: "Este é o dia grande e maravilhoso que o Senhor fez."


A paixão

Eu, humilde servo do amor, vos escrevo com simplicidade, para que compreendais. O que diz ainda o profeta? "Uma assembléia de malfeitores me rodeou. Eles me cercaram como abelhas ao favo." E "sobre minhas vestes tiraram sortes." E como era na sua carne que ele devia revelar-se e sofrer, sua paixão foi revelada de antemão. De fato, o profeta diz a respeito de Israel: "Ai da vida deles! Pois conceberam um desejo mau contra si mesmos, dizendo: Amarremos o justo, porque ele nos incomoda."


Nova criação

Que lhes diz Moisés, outro profeta? "Eis o que diz o Senhor Deus: Entrai na terra boa, que o Senhor prometeu a Abraão, Isaac e Jacó. Tomai posse dessa terra, onde correm leite e mel." 0 que diz a sabedoria? Aprendei: "Ponde vossa esperança em Jesus, que deve revelar-se a vós na carne." Com efeito, o homem é terra que sofre, pois é da terra que Adão foi plasmado. Que significa: "Na terra boa, terra onde correm leite e mel"? Bendito seja nosso Senhor, irmãos, pois ele pôs em nós a sabedoria e o entendimento de seus segredos. Pois o profeta diz: "Quem poderá compreender uma parábola do Senhor, a não ser o sábio que conhece e ama o seu Senhor?" Depois de nos ter renovado com o perdão dos pecados, ele fez de nós um novo ser, de modo que tenhamos alma de criança, como se ele nos tivesse plasmado novamente. De fato, a Escritura fala a nosso respeito, quando ele diz ao Filho: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que eles dominem sobre os animais da terra, as aves do céu e os peixes do mar." E, vendo que nós éramos boa criação, o Senhor disse: "Crescei, multiplicaivos e enchei a terra." Foi isso que ele disse ao Filho. Vou agora te mostrar como ele fala de nós. Ele realizou segunda criação nos últimos tempos. O Senhor diz: "Eis que faço as últimas coisas como as primeiras." Nesse sentido, assim falou o profeta: "Entrai na terra onde correm leite e mel, e dominai-a." Eis-nos, portanto, criados de novo, conforme o que ele diz ainda por outro profeta: "Eis", diz o Senhor, "que arrancarei deles" -isto é, daqueles que o Espírito do Senhor via de antemão-"os corações de pedra, e implantarei neles corações de carne." De fato, é na carne que ele devia manifestar-se e habitar em nós. Com efeito, meus irmãos, nossos corações assim habitados formam um templo santo para o Senhor. E o Senhor diz ainda: "Como me apresentarei diante do Senhor e serei glorificado?" Ele diz: "Celebrar-te- ei na assembléia de meus irmãos e cantarei teus louvores em meio à assembléia dos santos." Portanto, somos nós que ele fez entrar na terra boa. E o que significam o "leite" e o "mel"? E porque a criança é nutrida primeiro com o mel e depois com o leite. Igualmente nós, alimentados pela fé na promessa e na palavra, vivemos dominando a terra. Ora, ele tinha dito antes: "Que eles cresçam, se multipliquem e dominem os peixes." E quem pode hoje dominar as feras, ou os peixes, ou os pássaros do céu? Devemos compreender que dominar implica poder, a fim de que aquele que ordena possa dominar. Se hoje não é assim, ele nos disse o tempo: Quando formos perfeitos para sermos herdeiros da aliança do Senhor.


CAPÍTULO 7

Jejum e o bode expiatório


Compreendei, portanto, filhos da alegria, que o bom Senhor nos revelou tudo de antemão, para que saibamos a quem constantemente celebrar com ação de graças. Se o Filho de Deus, que é Senhor e julgará os vivos e os mortos, sofreu para nos dar a vida por meio de seus ferimentos, acreditamos que o Filho de Deus não podia sofrer, a não ser por causa de nós. Além disso, já crucificado, deram-lhe a beber vinagre e fel. Escutai como os sacerdotes do templo se expressaram sobre isso. O mandamento escrito dizia: "Quem não jejuar no dia do jejum, será condenado à morte." O Senhor deu esse mandamento, porque também ele devia oferecer a si próprio pelos nossos pecados, como receptáculo do Espírito, em sacrifício, a fim de que fosse cumprida a prefiguração manifestada em Isaac, oferecido sobre o altar. O que diz ele por meio do profeta? "Que comam, durante o jejum, do bode oferecido por todos os pecados." Notai bem: "E que todos os sacerdotes, e somente eles, comam as vísceras não lavadas com vinagre." Por que isso? "Porque vós me fareis beber fel com vinagre, a mim que ofereci minha carne pelos pecados do meu novo povo. Somente vós comereis, enquanto o povo jejuará e se

flagelará com pano de saco e cinza." Isso era para mostrar que ele deveria sofrer na mão deles. Como ele ordenou? Prestai atenção: "Tomai dois bodes bonitos e iguais, e oferecei-os em sacrifício. Que o sacerdote tome o primeiro como holocausto pelos pecados." E o que farão com o outro? Ele diz: "O outro é maldito." Notai como a figura de Jesus é manifestada. "Cuspi todos nele, transpassai-o, coroai sua cabeça com lã escarlate e, desse modo, seja expulso para o deserto." Feito isso, aquele que leva o bode o conduz ao deserto, tira-lhe a lã e a coloca sobre um arbusto chamado sarça, cujos frutos costumamos comer quando nos encontramos no campo. Somente os frutos da sarça são doces. O que significa isso? Prestai atenção: "O primeiro bode sobre o altar, o outro é maldito". Justamente o maldito é que é coroado. É que eles o verão, naquele dia, trazendo sobre sua carne o manto escarlate, e dirão: "Não é este que outrora crucificamos, depois de o ter desprezado, transpassado e cuspido? Na verdade, era este que então se dizia Filho de Deus." Qual a sua semelhança com aquele? São bodes "semelhantes", "belos", iguais, para que quando o virem então vir, fiquem espantados com a semelhança do bode. Eis, portanto, a figura de Jesus que devia sofrer. E por que se coloca a lã no meio dos espinhos? É uma figura de Jesus proposta para a Igreja: porque os espinhos são terríveis, aquele que quer pegar a lã escarlate deve sofrer muito, e deve apossar-se dela através da dor. Ele diz: "Dessa forma, aqueles que desejam ver-me e alcançar o meu Reino devem passar por tribulações e sofrimentos, para se apossar de mim."


CAPÍTULO 8

Sacrifício da novilha


E que figura pensais que representa o mandamento dado a Israel: os homens que têm pecados consumados ofereçam a novilha, a imolem e, depois queimem? Além disso, as crianças deviam recolher as cinzas, colocá-las nos vasos, enrolar a lã escarlate num pedaço de madeira - de novo aqui a imagem da cruz e a lã escarlate - e o hissopo. E assim, as crianças deviam aspergir todos os membros do povo, para que ficassem purificados dos pecados. Reconhecei como ele vos fala com simplicidade: a novilha é Jesus; os pecadores que a oferecem são aqueles que o conduziram para ser imolado. Basta com esses homens! Basta com a glória dos pecadores! As crianças que fazem a aspersão são aqueles que nos anunciaram a remissão dos pecados e a purificação do coração. A eles foi conferida a autoridade de anunciar o Evangelho, e são doze para testemunhar às tribos, pois as tribos de Israel eram doze. E por que são três crianças que fazem a aspersão? Para testemunhar Abraão, Isaac e Jacó, que são grandes diante de Deus. E a lã sobre o madeiro? Ela significa que o Reino de Jesus está sobre o madeiro e os que nele esperam viverão para sempre. Contudo, por que se põem juntos a lã e o hissopo? Porque no seu Reino haverá dias maus e poluídos, durante os quais seremos salvos. Com efeito, é pelo respingo poluído do hissopo que se cura aquele cuja carne está doente. E por isso que esses acontecimentos são tão claros para nós, mas para eles tão obscuros, pois eles não ouviram a voz do Senhor.



CAPÍTULO 9

A verdadeira circuncisão


Circuncisão do ouvido

De fato, é dos ouvidos que ele fala ainda, quando diz que circuncidou nossos ouvidos e nossos corações. O Senhor diz por meio do profeta: "Obedeceram-me com os ouvidos." E diz ainda: "Os que estão longe escutarão com o ouvido e conhecerão o que eu fiz". E mais: "Circuncidai vossos ouvidos, diz o Senhor." E diz também: "Escuta, Israel, eis o que diz o Senhor teu Deus: Quem deseja viver para sempre? Que ele escute com o ouvido a voz do meu servo." E diz ainda: "Escuta, ó céu; dá ouvidos, ó terra, pois o Senhor falou isso como testemunho." E diz mais: "Escutai a palavra do Senhor, príncipes deste povo." E diz ainda: "Filhos, escutai a voz que grita no deserto." Ele, portanto, circuncidou nossos ouvidos, para que escutemos a palavra e creiamos.


Circuncisão do coração

Contudo, a circuncisão, na qual eles depositavam confiança, foi rejeitada. De fato, ele dissera que a circuncisão não devia ser da carne, mas eles transgrediram, porque um anjo mau os enganou. Todavia, ele lhes diz: "Assim fala o Senhor vosso Deus" - é aí que encontro o mandamento -: "Não semeeis entre os espinhos, mas circuncidai-vos para o vosso Senhor." E o que diz ele? "Circuncidai a maldade do vosso coração." E diz ainda: "Eis, diz o Senhor, que todas as nações têm o prepúcio incircunciso, mas este povo tem o coração incircunciso."


Circuncisão de Abraão

Vós, porém, direis: "O povo recebeu a circuncisão como selo." Contudo, todos os sírios, os árabes e todos os sacerdotes dos ídolos também têm a circuncisão. Pertencem também eles à sua aliança? Até os egípcios praticam a circuncisão! Filhos do amor, aprendei mais particularmente estas coisas: Abraão, praticando por primeiro a circuncisão, circuncidava porque o Espírito dirigia profeticamente seu olhar para Jesus, dando-lhe o conhecimento das três letras. Com efeito, ele diz: "E Abraão circuncidou entre os homens de sua casa trezentos e dezoito homens." Qual é, portanto, o conhecimento que lhe foi dado? Notai que ele menciona em primeiro lugar os dezoito e depois, fazendo distinção, os trezentos. Dezoito se escreve: I, que vale dez, e H, que representa oito. Tens aí: IH(sous) = Jesus. E como a cruz em forma de T devia trazer a graça, ele menciona também trezentos (= T). Portanto, ele designa claramente Jesus pelas duas primeiras letras e a cruz pela terceira. Quem depositou em nós o dom do seu ensinamento sabe bem disto: Ninguém recebeu de mim ensinamento mais digno de fé. Sei, porém, que vós sois dignos.


CAPÍTULO 10

Significado espiritual das prescrições alimentares


Primeira formulação


Moisés disse: "Não comereis porco, nem águia, nem gavião, nem corvo, nem peixe algum que não tenha escamas". Porque ele tinha em mente três ensinamentos. Por fim, ele diz a eles no Deuteronômio: "Exporei a esse povo as minhas decisões." A proibição de comer não é, portanto, mandamento de Deus, pois Moisés falava simbolicamente. Eis o significado do que ele diz sobre o "porco". Não te ligarás a esses homens que se assemelham aos porcos; isto é, que quando vivem na abundância, se esquecem do Senhor; mas na necessidade reconhecem o Senhor. Assim é o porco: enquanto está comendo, ele não conhece seu dono; mas quando está com fome, ele grunhe e, uma vez

tendo comido, volta a se calar. Ele diz: "Também não comerás a águia, nem o gavião, nem o milhafre, nem o corvo." Isto é: não te ligarás, imitando-os, a esses homens que não sabem ganhar o alimento por meio do trabalho e do suor, mas que, em sua injustiça, arrebatam o bem alheio. Andam com ar inocente, mas espionam e observam a quem vão despojar por ambição. Eles são como essas aves, as únicas que não providenciam o alimento por si próprias, mas se empoleiram ociosamente, procurando

a ocasião de se alimentar da carne dos outros. São verdadeiros flagelos por sua crueldade. Ele continua: "Não comerás moreia, nem polvo, nem molusco." Isto é: não te assemelharás, ligando-te a esses homens que são radicalmente ímpios e já estão condenados à morte. O mesmo acontece com esses peixes: são os únicos amaldiçoados, que nadam nas profundezas, sem subirem como os outros; permanecem no fundo da terra, habitando o abismo.

Segunda formulação

Também "não comerás a lebre." Por que razão? Isso quer dizer: não serás pederasta, nem imitarás aqueles que são assim. Porque a lebre, a cada ano, multiplica seu ânus. Ela tem tantos orifícios quanto o número de seus anos. Também "não comerás a hiena". Isso quer dizer: não serás nem adúltero, nem homossexual, e não te Assemelharás àqueles que são assim. Por que razão? Porque esse animal muda de sexo todos os anos e torna se ora macho, ora fêmea. EIe odiou também "a doninha". Muito bem! Não serás como aqueles que cometem, como se diz, iniqüidade com a boca por depravação, nem te ligarás a esses depravados que cometem iniqüidade com sua boca. De fato, esse mal se concebe pela boca. Moisés, tendo recebido tríplice ensinamento sobre os alimentos, usou linguagem simbólica. Eles, porém, o entenderam sobre os alimentos materiais, por causa do desejo carnal.


Davi confirma o ensinamento

Davi recebeu o conhecimento desse mesmo ensinamento tríplice. Ele fala de forma semelhante: "Feliz o homem que não vai ao conselho dos ímpios", como os peixes que se movem nas trevas para o fundo; "e que não pára no caminho dos pecadores", como aqueles que aparentam temer ao Senhor, mas pecam como o porco; "e que não se assentou na cátedra da pestilência", como as aves que se postam para a rapina. Aí tendes perfeitamente o que se refere à comida.


Conclusão

Moisés, porém, disse: "Comei de todo animal que tem o casco fendido e que rumina." O que ele quer dizer? Que (tal animal), quando recebe a comida, conhece aquele que o alimenta, e quando repousa, parece que se alegra com ele. Disse-o bem, considerando o mandamento. Que quer ele dizer? Vinculai-vos àqueles que temem o Senhor, que meditam no coração sobre o sentido exato da palavra que receberam, que ensinam e observam as decisões do Senhor, que sabem que a meditação é alegre exercício e que ruminam a palavra do Senhor. O que significa o "casco fendido"? É que o justo caminha neste mundo e espera o mundo santo. Vede como Moisés legislou bem! Mas, para eles,

como é possível compreenderem ou entenderem essas coisas? Nós, tendo compreendido exatamente os mandamentos, os exprimimos como o Senhor desejou. Por isso, ele circuncidou nossos ouvi dos e nossos corações, para compreendermos essas coisas.

CAPÍTULO 11

Profecias do Batismo e da Cruz


A água

Pesquisemos se o Senhor teve intenção de falar antecipadamente sobre a água e sobre a cruz. Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam constituído um. Com efeito, diz o profeta: "Pasma, ó céu, e que a terra trema ainda mais! Pois este povo cometeu mal duplo: eles me abandonaram, a mim que sou a fonte viva da água, e cavaram para si mesmos uma cisterna de morte. Por acaso, o Sinai, minha montanha santa, é rocha deserta? Vós sereis como os passarinhos que voam, quando se lhes tira o ninho." E o profeta diz ainda: "Eu marcharei à tua frente, aplainarei as montanhas, quebrarei as portas de bronze, despedaçarei as trancas de ferro, e te darei tesouros secretos, escondidos, invisíveis, a fim de que saibam que eu sou o Senhor Deus. Tu habitarás numa caverna alta de rocha sólida, onde a água não falta nunca. Vereis o rei em sua glória e vossa alma meditará no temor do Senhor."


A água e o madeiro


EIe diz ainda por meio de outro profeta: "Quem assim age, será como a árvore plantada junto à corrente d'água, e que dá seu fruto no tempo certo. Sua folhagem não cairá; e tudo o que ele fizer terá sucesso. Não são assim os ímpios, não são assim. Eles são, antes, como a poeira que o vento espalha na face da terra. E por isso que os ímpios não se levantarão no julgamento, nem os pecadores no conselho dos justos. Pois o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá." Notai que ele designa ao mesmo tempo a água e a cruz. Com efeito, ele quer dizer: "Felizes aqueles que, tendo lançado sua esperança na cruz, desceram para a água. Pois ele diz que o salário vem "no tempo certo". Então, diz ele, eu retribuirei. Mas para hoje, ele diz: "Sua folhagem não cairá." Isso significa que toda palavra de fé e amor que sair da vossa boca será para muitos causa de conversão e de esperança. E outro profeta diz ainda: "E a terra de Jacó era celebrada mais do que qualquer outra terra." Isso quer dizer que ele glorifica o vaso do seu Espírito. O que diz ele a seguir? "Havia um rio que corria, vindo da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente." Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o temor e a esperança em Jesus. "Quem comer deles viverá eternamente", quer dizer: quem escutar, quando tais palavras são ditas, e crer nelas, viverá eternamente.



CAPÍTULO 12


O madeiro

Da mesma forma, é sobre a cruz que ele fala por meio de outro profeta: "Quando tais coisas se cumprirão? Diz o Senhor: Quando um madeiro for estendido no chão e depois novamente levantado, e quando o sangue gotejar do madeiro." Eis que se fala de novo da cruz e daquele que seria crucificado. Ele ainda fala a Moisés, quando Israel é atacado pelos povos estrangeiros, para lembrar-lhes, nesse combate, que era pelos pecados deles que estavam sendo entregues à morte. Falando ao coração de Moisés, o Espírito lhe fez representar a figura da cruz e de quem sofreria, pois, diz ele, se não esperarem nele, serão eternamente atacados. Então Moisés amontoou as armas no meio do combate e, de pé, no lugar mais alto de todos, estendeu os braços, e assim Israel venceu novamente. Em seguida, cada vez. que os abaixava, os israelitas sucumbiam outra vez. Por quê? Para que soubessem que não podiam ser salvos, se não confiassem nele. Por meio de outro profeta, ele diz ainda: "O dia inteiro estendi meus braços para um povo desobediente e que se opõe ao meu justo caminho." Outra vez ainda, no momento em que Israel sucumbia, Moisés fez prefiguração de Jesus, mostrando que ele devia sofrer, e justamente aquele que acreditavam estar morto na cruz, haveria de dar a vida. De fato,

o Senhor fez com que todo tipo de serpentes os mordessem, e eles morriam, embora a serpente tenha sido para Eva o instrumento da desobediência. Ele queria assim convencê-los de que era por causa da desobediência deles que seriam entregues à tortura da morte. Finalmente, o próprio Moisés tinha ordenado: "Não tereis, como vosso deus, nenhuma imagem fundida ou esculpida." Mas ele próprio fez uma serpente de bronze, colocou-a diante de todos, e convocou o povo. Quando se reuniram naquele

lugar, suplicaram a Moisés que intercedesse pela cura deles. Moisés porém, lhes respondeu: "Quando alguém de vós for mordido, venha até à serpente fixada ao madeiro e creia com confiança. Crendo que essa serpente, embora morta, possa dar a vida, no mesmo instante será salvo." Assim fizeram eles. Eis aqui de novo a glória de Jesus, porque tudo está nele e tudo é para ele.


Jesus, Filho de Deus

Que diz ainda Moisés a respeito do profeta Jesus, filho de Nave, dando-lhe esse nome, somente para que todo o povo ouvisse que o Pai revela todas as coisas em torno de seu Filho Jesus? Enviando-o para explorar o país, depois de lhe ter dado esse nome, Moisés disse a Jesus, filho de Nave: "Toma em tuas mãos um livro e escreve o que diz o Senhor: Nos últimos dias, o Filho de Deus arrancará pelas raízes a casa de Amalec." Mais uma vez, eis que Jesus, manifestado em prefiguração carnal, não filho de homem, mas Filho de Deus. Porque diriam que o Cristo é filho de Davi, o próprio Davi, temendo e prevendo o erro dos pecadores, profetiza: "Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como estrado para teus pés." Isaías também diz: "O Senhor disse ao Cristo, meu Senhor: Eu o tomei pela mão direita, para que as nações lhe obedeçam, e eu romperei a força dos reis." Vede como Davi o chama Senhor, e não filho!


CAPÍTULO 13

A Aliança


Qual povo é o herdeiro?

Vejamos agora qual é o povo que recebe a herança. Se este, ou se o primeiro. E a Aliança, é para nós, ou para aqueles? Escutai, então, o que diz a Escritura a respeito do povo: "Isaac rezava pela sua mulher Rebeca, que era estéril, e ela concebeu". Depois: "Rebeca saiu para consultar o Senhor, e o Senhor lhe disse: Há duas nações em teu seio e dois povos em tuas entranhas. Um povo dominará o outro, e o mais velho servirá ao mais jovem." Deveis compreender quem é Isaac e quem é Rebeca, e a quem se referia ao mostrar que este povo é maior do que aquele. Em outra profecia, Jacó se dirige mais claramente ainda a seu filho José, dizendo: "Eis que o Senhor não me privou de tua presença. Traze-me teus filhos, para que eu os abençoe." Ele levou Efraim e Manasses, querendo que Manassés, o mais velho, recebesse a bênção. José o conduziu para a mão direita de seu pai Jacó. No entanto, Jacó viu em espírito a prefiguração do povo futuro. E o que disse ele? "E Jacó cruzou as mãos, e colocou a direita sobre a cabeça de Efraim, o segundo e o mais novo, e o abençoou. Então José disse a Jacó: ‘Desvia tua mão direita e colocaa sobre a cabeça de Manassés, pois ele é o meu filho primogénito'. Então Jacó disse a José: ‘Eu sei, meu filho, eu sei. O mais velho servirá ao mais jovem, e é este que

será abençoado.'" Vede a quem ele se referia ao decidir que este povo seria o primeiro e o herdeiro da Aliança. Se isso ainda nos é lembrado no caso de Abraão, então nosso conhecimento torna-se completo. O que é que ele diz então a Abraão, pelo fato de que somente ele tinha acreditado, e foi estabelecido na justiça? "Abraão, eis que eu te estabeleci como pai de nações que, embora incircuncisas, acreditam em Deus."



CAPÍTULO 14


A quem Deus dá sua Aliança?

Muito bem. Porém vejamos: Pesquisemos, para ver se ele deu ao povo a Aliança que prometera - juramento a seus antepassados. Certamente ele a deu, mas eles não foram dignos de recebê-la, por causa de seus pecados. De fato, o profeta diz: "Moisés jejuou quarenta dias e quarenta noites no monte Sinai, para receber a Aliança do Senhor com o povo. E Moisés recebeu do Senhor as duas tábuas escritas em espírito pelo dedo da mão do Senhor. Moisés as tomou, e começou a descer, para levá-las ao povo. Então disse a Moisés o Senhor: `Moisés, Moisés, apressa-te a descer, pois teu povo, que fizeste sair da terra do Egito, pecou.' Moisés compreendeu que eles ainda tinham feito para si imagens

de metal fundido. Então ele atirou de suas mãos as tábuas, e as tábuas da Aliança do Senhor se quebraram." Moisés, portanto, a recebeu, mas eles não foram dignos dela. Aprendei como nós a recebemos. Moisés a recebeu como servo, mas o próprio Senhor, depois de sofrer por nós, no-la entregou como povo da herança. Ele apareceu, para que aqueles levassem ao máximo a medida dos pecados e nós recebêssemos a Aliança mediante o Senhor Jesus, o herdeiro. Jesus foi preparado por ocasião de sua manifestação, para libertar das trevas nossos corações já consumidos pela morte e entregues aos desvios da iniqüidade, e para estabelecer conosco uma Aliança com a palavra. De fato, está escrito que o Pai lhe ordenou libertar-nos das trevas, a fim de preparar para si um povo santo. Diz, portanto, o profeta: "Eu, o Senhor teu Deus, te chamei na justiça, e te tomarei pela mão e te fortificarei. Eu te coloquei como Aliança de um povo, como luz das nações, para abrir os olhos dos cegos, para libertar das cadeias os prisioneiros e da prisão aqueles que estão nas trevas." Sabei, portanto, de onde fomos libertos! O profeta diz ainda: "Eis que eu te coloquei como luz das nações, a fim de que sirvas para a salvação, até os confins da terra. Assim diz o Senhor, o Deus que te libertou." E o profeta diz ainda: "O Espírito do Senhor está sobre mim e, por isso, me ungiu para anunciar aos pobres o evangelho da graça. Ele me enviou para curar os corações quebrantados, para proclamar aos prisioneiros a liberdade e aos cegos a vista, para anunciar o ano favorável do Senhor e o dia da retribuição, para consolar todos os que choram."


CAPÍTULO 15



O Sábado de Deus

Ainda, sobre o sábado, está escrito no Decálogo que Deus o entregou pessoalmente a Moisés sobre o monte Sinai: "Santificai o sábado do Senhor com mãos puras e coração puro." Em outro lugar, ele diz: "Se meus filhos guardarem o sábado, então estenderei sobre eles a minha misericórdia." Ele menciona o sábado no princípio da criação: "Em seis dias, Deus fez as obras de suas mãos e as terminou no sétimo dia, e nele descansou e o santificou." Prestai atenção, filhos, sobre o que significa: "terminou no sétimo dia". Isso significa que o Senhor consumará o universo em seis mil anos, pois um dia para ele significa mil anos. Ele próprio o atesta, dizendo: "Eis que um dia do Senhor será como mil anos." Portanto, filhos, em "seis dias", que são seis mil anos, o universo será consumado. "E ele descansou no sétimo dia." Isso quer dizer que seu Filho, quando vier para pôr fim ao tempo do Iníquo, para julgar os ímpios e mudar o sol, a lua e as estrelas, então ele, de fato, repousará no sétimo dia. Por fim, ele diz: "Tu o santificarás com mãos puras e coração puro." Contudo, se alguém atualmente pudesse santificar, de coração puro, esse dia que Deus santificou, então nós nos teríamos enganado completamente. Porém, se este agora não é o caso, ele o santificará verdadeiramente no repouso, quando nós formos capazes disso, isto é, quando tivermos sido justificados e tivermos recebido o objeto da promessa, quando não houver mais iniqüidade, e o Senhor tiver renovado tudo. Então, poderemos santificá-lo, tendo sido primeiro nós mesmos santificados. Ele finalmente lhes disse: "Não suporto vossas neomênias e vossos sábados". Vede como ele diz: não são os sábados atuais que me agradam, mas aquele que eu fiz e no qual, depois de ter levado todas as coisas ao repouso, farei o início do oitavo dia, isto é, o começo de outro mundo. Eis por que celebramos como festa alegre o oitavo dia, no qual Jesus ressuscitou dos mortos e, depois de se manifestar, subiu aos céus.


CAPÍTULO 16


O Templo

No que se refere ao templo, eu vos direi ainda como esses infelizes extraviados puseram sua esperança num edifício, como se fosse a casa de Deus, e não no Deus deles, que os criou. Com efeito, quase como os pagãos, eles o consagraram no templo. Mas, como fala o Senhor, abolindo-o? Aprendei: "Quem mediu o céu com o palmo e a terra com a mão? Não fui eu? diz o Senhor: O céu é o meu trono e a terra é o estrado dos meus pés. Que casa construireis para mim, ou qual será o lugar do meu repouso?" Vede como era vã a esperança deles. Por fim, ele diz ainda: "Eis! aqueles que destruíram esse templo, eles mesmos o edificarão." E o que está acontecendo. De fato, por causa da guerra deles, o templo foi destruído pelos inimigos. E agora, os mesmos servos dos inimigos o reconstruirão. Ele tinha igualmente revelado que a cidade, o templo e o povo de Israel seriam entregues. Com efeito, a Escritura diz: "Acontecerá no fim dos dias que o Senhor entregará à destruição as ovelhas do pasto, o aprisco e a sua torre." E aconteceu conforme o Senhor tinha dito. Indaguemos se existe um templo de Deus. Sim, existe onde ele mesmo diz que o há de construir e aperfeiçoar. De fato, está escrito: "Quando a semana estiver terminada, será construído um templo de Deus, com esplendor, sobre o nome do Senhor." Acho pois que existe um templo. E como ele "será construído sobre o nome do Senhor"? Aprendei: antes que acreditássemos em Deus, nossos corações eram uma habitação corruptível e frágil, exatamente como um templo construído por mão humana. Com efeito, estava cheio de idolatria e era casa de demônios pois todas as nossas ações se opunham a Deus. Contudo, "ele será construído sobre o nome do Senhor." Estai atentos, para que o templo do Senhor seja construído "com esplendor". De que modo? Aprendei: recebendo o perdão dos pecados e pondo nossa esperança no Nome, nós nos tornamos novos, recriados desde o princípio. É por isso que Deus habita

verdadeiramente em nós, tornando-nos sua morada. Como? Pela sua palavra de fé, pelo chamado da sua promessa, pela sabedoria das suas leis, pelos mandamentos da doutrina, e ele próprio profetizando em nós, habitando em nós, abrindo para nós a porta do templo, que é a nossa boca, e dando-nos o arrependimento, ele nos introduz no templo incorruptível. De fato, quem deseja ser salvo não olha para o homem, mas para aquele que habita nele e fala por meio dele, maravilhado "Neomênias" é o primeiro dia do mês (lunar), a "lua nova" ou "neomênia", era uma festa celebrada tanto entre os

israelitas como entre os cananeus (cf. Lv 23,24; 1Sm 20,5.24; Is 13; Am 8,5). Como o sábado, a lua nova (neoménia) interrompia as transações comerciais. de não ter ouvido as palavras daquele que fala através de uma boca humana, nem de ter desejado ouvi-Ias. Esse é o templo espiritual construído pelo Senhor.



CAPÍTULO 17

Conclusão

Eu vos expliquei essas coisas com a maior simplicidade possível, e espero não ter deixado nada de lado. Com efeito, se vos escrevesse sobre o presente ou o futuro, não compreenderíeis, pois isso permanece em parábolas.


Parte II – Moral


CAPÍTULO 18

Os Dois Caminhos


Introdução

Sobre esse assunto, chega. Passemos para outro tipo de conhecimento e ensinamento. Existem dois caminhos de ensinamento e autoridade: o da luz e o das trevas. A diferença entre os dois é grande. De fato, sobre um estão postados os anjos de Deus, portadores da luz; e sobre o outro, os anjos de satanás. Um é Senhor de eternidade em eternidade, o outro é príncipe do presente tempo da iniqüidade.


CAPÍTULO 19

O caminho da luz

Este é o caminho da luz: se alguém quer andar no caminho e chegar ao lugar determinado, que se esforce em suas obras. Eis, portanto, o conhecimento que nos foi dado para andar nesse caminho. Ama aquele que te criou. Teme aquele que te formou. Glorifica aquele que te resgatou da morte. Sê simples de coração e rico de espírito. Não te ligues àqueles que andam no caminho da morte. Odeia tudo o que não é agradável a Deus. Odeia toda hipocrisia. Não abandones os mandamentos do Senhor. Não te engrandeças a ti mesmo, mas sê humilde em todas as circunstâncias. Não te arrogues glória. Não planejes o mal contra o teu próximo. Não te entregues à insolência. Não pratiques a prostituição, nem o adultério, nem a pederastia.

Não divulgues a palavra de Deus entre pessoas impuras. Não faças diferença entre as pessoas, ao corrigir alguém por sua falta. Sê manso, tranqüilo, respeitando as palavras que ouviste. Não sejas vingativo para com teu irmão.

Não fiques hesitando sobre o que vai ou não acontecer. Não tomes em vão o nome do Senhor. Ama o teu próximo mais do que a ti mesmo. Não mates a criança no seio da mãe, nem logo que ela tiver nascido. Não te descuides de teu filho ou de tua filha. Pelo contrário, dá-lhes instrução desde a infância no temor do Senhor.

Não cobices os bens do teu próximo. Não sejas avarento, não te juntes de coração com os grandes, mas conversa com os justos e pobres. Aceita como boas as coisas que te acontecem, sabendo que nada acontece sem o consentimento de Deus.

Não sejas dúplice no pensar e no falar, porque a duplicidade é armadilha mortal. Sê submisso a teus senhores, com respeito e reverência, como à imagem de Deus. Não dês ordens com rudeza ao teu servo ou à tua serva, pois eles esperam no mesmo Deus que tu, para que não percam o temor de Deus, que está acima de uns e de outros; com efeito, ele não vem chamar a pessoa pela aparência, mas aqueles que o Espírito preparou.

Compartilha tudo com o teu próximo, e não digas que são coisas tuas. Se estais unidos nas coisas incorruptíveis, tanto mais nas coisas corruptíveis. Não sejas loquaz, porque a boca é armadilha mortal.

O quanto podes, sê puro com a tua alma.

Não sejas como os que estendem a mão na hora de receber, e a retiram na hora de dar. Ama, como a pupila do teu olho, todo aquele que te anuncia a palavra de Deus.

Lembra-te noite e dia, do dia do julgamento. A cada dia, procura a companhia dos santos. Empenha-te com a pregação, exortando e preocupando-te em salvar uma alma pela palavra, ou então em trabalhar com tuas mãos, para resgatar teus pecados.

Não hesites em dar, nem dês reclamando, pois sabes quem é o verdadeiro remunerador da tua recompensa. Guarda o que recebeste, sem nada acrescentar ou tirar. Odeia totalmente o mal. Julga de modo justo.

Não provoques divisão. Pelo contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si. Confessa os teus pecados. Não te apresentes em má consciência para a oração.


CAPÍTULO 20


O caminho da treva

O caminho da treva é tortuoso e cheio de maldições. De fato, em sua totalidade, ele é o caminho da morte eterna nos tormentos. Nele se encontram as coisas que arruínam a alma dos homens: idolatria, insolência, altivez do poder, hipocrisia, duplicidade de coração, adultério, homicídio, rapina, orgulho, transgressão, fraude, maldade, arrogância, feitiçaria, magia, avareza e ausência do temor de Deus.

(São) os que perseguem os bons, odeiam a verdade, amam a mentira, ignoram a recompensa da justiça, não se ligam ao bem nem ao julgamento justo, não cuidam da viúva e do órfão, não vigiam para o temor de Deus, mas para o mal, afastam-se da mansidão e da paciência, amam as vaidades, correm atrás da recompensa, não têm misericórdia para com o pobre, recusam ajudar o oprimido, difamam facilmente, ignoram o seu Criador, matam crianças, corrompem a imagem de Deus, não se compadecem do necessitado, não se importam com os atribulados, defendem os ricos, são juízes injustos com os pobres, e, por fim, são pecadores consumados.


CAPÍTULO 21


Conclusão

É bom, portanto, aprender as sentenças do Senhor, que estão escritas, e a elas conformar o comportamento. Com efeito, aquele que as pratica será glorificado no Reino de Deus, mas aquele que escolher o outro (Caminho) perecerá com suas obras. Por isso, existe ressurreição, e por isso existe retribuição. A vós, que sois superiores, peço que aceitem um conselho da minha benevolência: Tendes no meio de vós pessoas para com as quais praticar o bem. Não deixem de o fazer. Está próximo o dia, no qual todas as coisas perecerão com o Maligno. Está próximo o Senhor, justo com a sua retribuição. Peço-vos ainda: sede bons legisladores para vós mesmos, permanecei fiéis conselheiros para vós mesmos, afastai de vós toda hipocrisia. O Deus, que reina sobre o mundo inteiro, vos dê sabedoria, inteligência, ciência, conhecimento de suas decisões, e perseverança. Deixai-vos instruir por Deus, procurando o que o Senhor quer de vós, e praticai-o, para que vos encontreis no dia do julgamento. Se vos recordais do bem, lembrai-vos de mim ao meditar sobre essas coisas. Desse modo, meu desejo e minha vigilância levarão a realizar algum bem. Peço-vos com insistência, como uma graça: enquanto o belo vaso ainda está convosco, não negligencieis nada das vossas coisas, mas buscai-as constantemente e cumpri todos os mandamentos, pois eles são dignos. Eis por que me esforcei em vos escrever, segundo minhas possibilidades. Eu vos saúdo, filhos do amor e da paz. Que o Senhor da glória e de toda graça esteja com vosso espírito.

O EVANGELHO DE NICODEMUS - I: Atos de Pilatos

Nicodemus narra os episódios da Crucificação e da Ressurreição, mas nada acrescenta aos Evangelhos canónicos. Curioso é observar que ele cita o local da Crucificação como sendo o horto onde Cristo foi aprisionado, o Getsêmani, situado ao pé do Monte das Oliveiras.


EVANGELHO DE NICODEMUS


Eu, Ananias, protector, de hierarquia pretoriana, perito em leis, vim através das divinas Escrituras tomar conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo e me aproximei dele pela fé, e permiti-me receber o santo baptismo; agora sinto-me, depois de seguir a pista das narrações relativas a Nosso Senhor Jesus Cristo, que foram feitas naquela época, e que os judeus deixaram guardadas com Pôncio Pilatos; encontrei-as com estavam, escritas em hebraico, e com o beneplácito divino traduzi-as para o grego, para o conhecimento de todos os que invocam o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, durante o reinado de Flávio Teodósio, nosso senhor, no ano 17, e sexto de Flávio Valentino, na nona indicação.

Todos, pois, quantos leiam e traduzam isto para outros livros, lembrem-se e peçam por mim para que o Senhor seja piedoso para comigo e me perdoe os pecados que cometi contra ele.

Paz aos leitores, aos ouvintes e aos seus servidores. Amém.

No ano décimo quinto do governo de Tibério César, imperador dos romanos; no ano décimo nono do governo de Heródes, rei da Galiléia; no oitavo dia das calendas de Abril, correspondente ao dia 25 de Março; durante o consulado de Rufo e Rubelião; no quarto ano da olimpíada 202; sendo, nessa época, José Caifás o sumo sacerdote dos judeus. Tudo o que Nicodemus narrou com base no tormento da cruz e da paixão do Senhor, transmitiu-o aos príncipes dos sacerdotes e aos demais judeus depois de havê-lo redigido ele mesmo em hebraico.

Depois de se haverem reunido em conselho os príncipes dos sacerdotes e os escribas, Anás e Caifás e Semes e Dothaim e Gamaliel, Judas, Levi e Neftali, Alexandre e Jairo e os restantes dentre os judeus apresentaram-se diante de Pilatos acusando Jesus de muitos feitos, dizendo: "Sabemos que ele é filho de José o carpinteiro e que nasceu de Maria, e chama-se a si mesmo Filho de Deus e rei; além disso profana o sábado e ainda pretende abolir a lei de nossos pais". Disse-lhes Pilatos: "E o que ele faz e o que ele pretende abolir?" Os judeus disseram: "Temos uma lei que proíbe a cura no Sabat; pois bem, este, servindo-se das más artes, curou durante o Sabat coxos, machucados, cegos, paralíticos, surdos e endemoninhados". Disse-lhes Pilatos: "Se realiza honestamente suas curas, não faz mal algum." Os judeus replicaram: "Se realizasse suas curas honestamente, não seria mal maior; mas para fazê-las usa a virtude de Belzebu, príncipe dos demónios, expulsa a estes e a todos que lhes são submissos". Disse-lhes Pilatos: "Isto não é tirar os demónios pela virtude de um espírito imundo, mas sim pela virtude do deus Esculápio".

Os judeus disseram a Pilatos: "Rogamos à tua autoridade que ele seja apresentado diante do teu tribunal para que possa ser ouvido". Pilatos então chamou-os e disse-lhes:

"Dizei-me vós como é que eu, um mero governador, posso submeter nada menos que um rei a interrogatório?" Eles responderam: "Nós não dissemos que é um rei, mas sim que ele mesmo se dá esse título". Então Pilatos chamou o mensageiro para dizer-lhe: "Que me seja apresentado aqui Jesus, com toda a deferência". O mensageiro saiu, então, e logo que identificou, o adorou; depois tirou o manto que levava em suas mãos e estendeu-o no chão, dizendo: "Senhor, passa por cima e entra, que o governador te chama". Os judeus, vendo o que o mensageiro havia feito, puseram-se a gritar contra Pilatos, dizendo: "Por que te serviste de um mensageiro para fazê-lo entrar, e não de um simples pregoeiro? Sabes que o mensageiro, assim que o viu, passou a adorá-lo e estendeu seu manto sobre o chão, fazendo-o caminhar por cima como se fosse um rei?"

Pilatos, então, chamou o mensageiro e lhe disse: "Por que fizeste isso e estendeste o manto sobre o chão, fazendo Jesus passar por cima?" O mensageiro respondeu: "Senhor governador, quando me enviaste a Jerusalém junto com Alexandre eu o vi montando um burro, e os filhos dos hebreus iam aclamando-o com ramos nas mãos, enquanto outros estendiam suas vestes no chão dizendo: "Salva-nos, tu que estás nas alturas; bendito o que vem em nome do Senhor'."

Os judeus então começaram a gritar e disseram ao mensageiro: "Os jovens hebreus clamavam em sua língua, como então informaste da sua equivalência em grego?" O mensageiro respondeu: "Perguntei a um dos judeus e lhe disse: "Que estão gritando em hebraico?' E ele traduziu". Pilatos disse-lhes: "Como soa em hebraico o que eles diziam em altos brados?" Os judeus responderam:

"Hosanna membrome; baruchamma; adonai".

Então Pilatos lhes disse: "E o que significa Hosanna e as outras palavras?" Os judeus responderam: "Salva-nos, tu que estás nas alturas; bendito o que vem em nome do Senhor".

Pilatos disse-lhes: "Se vós mesmos dais testemunho das vozes que saíram da boca dos jovens, que falta cometeu o mensageiro?" Eles se calaram. Então o governador disse ao mensageiro: "Sai e faze-o entrar da maneira que lhe aprouver". Saiu, então, o mensageiro e procedeu da mesma maneira que anteriormente, dizendo a Jesus: "Senhor, entra; o governador te chama".

Mas no momento em que Jesus entrava, os que seguravam os estandartes inclinaram-se e adoraram a Jesus. Os judeus que presenciaram esse gesto de reverência e adoração a Jesus, começaram a gritar desaforos contra os que portavam as bandeiras. Mas Pilatos lhes disse: "Não vos causa admiração ver como eles se inclinaram e adoraram Jesus?" Os judeus responderam a Pilatos: "Nós mesmos vimos como eles se inclinaram e o adoraram". O governador chamou então os que carregavam as bandeiras e lhes disse: "Por que agistes assim?" Eles responderam a Pilatos: "Nós somos gregos e servidores das divindades, como então iríamos adorá-lo? Saibas que, enquanto estávamos erectos, nossos corpos se inclinaram por eles mesmos e o adoraram".

Então Pilatos disse aos arquissinagogos e anciãos do povo: "Escolhei vós mesmos alguns varões fortes e robustos; que eles segurem os estandartes e vejamos se estes inclinam-se sozinhos: "Então os anciãos escolheram de entre os judeus doze homens fortes e robustos, aos quais obrigaram a sustentar os estandartes em grupos de seis, e ficaram em pé diante do tribunal do governador. Então Pilatos disse ao mensageiro: "Leva-o para fora do pretório e introduze-o novamente da maneira que te aprouver". E Jesus saiu do pretório acompanhado do mensageiro. Pilatos chamou então aqueles que anteriormente estavam com os estandartes e lhes disse: "Jurei pela saúde de César que, se os estandartes não se dobrarem à entrada de Jesus, cortar-vos-ei as cabeças". E o governador ordenou novamente que Jesus entrasse. O mensageiro observou a mesma conduta do início e rogou encarecidamente a Jesus que passasse por cima de seu manto. E caminhando sobre ele, entrou. Mas no momento de entrar, novamente os estandartes se dobraram e adoraram Jesus.

Quando Pilatos viu a cena, encheu-se de medo e dispôs-se a deixar o tribunal. Mas enquanto ainda pensava em levantar-se, sua mulher enviou-lhe esta carta: "Não te envolvas com esse justo, pois durante a noite sofri muito por sua causa". Então Pilatos chamou todos os judeus e lhes disse: "Sabeis que minha mulher é piedosa e que tende mais para o bem do que para segui-los em vossos costumes judeus?" Eles disseram: "Sim, sabemos". Pilatos disse-lhes: "Pois bem, minha mulher acaba de enviar-me este recado: "Não te envolvas com esse justo, pois durante a noite sofri muito por sua causa'." Mas os judeus responderam a Pilatos dizendo: "Não te dissemos que é um mágico? Sem dúvida enviou um sono fantástico a tua mulher".

Pilatos então chamou Jesus e lhe disse: "Como é que estes testemunham contra ti? Não dizes nada?" Jesus respondeu: "Se não tivessem pode para isso, não diriam nada, pois cada um é dono da sua boca para falar coisas boas e más: eles verão".

Mas os anciãos dos judeus responderam, dizendo a Jesus: "Que é que nós vamos ver?

Primeiro, que tu vieste ao mundo por fornicação; segundo, que o teu nascimento em Belém trouxe como consequência uma matança de crianças; terceiro, que teu pai José e tua mãe Maria fugiram para o Egito por encontrarem-se ameaçados na cidade".

Então, alguns dos que ali estavam presentes, e que eram judeus piedosos, disseram:

"Nós não estamos de acordo que haja de fornicação, mas sim sabemos que José desposou Maria e que não foi gerado através de fornicação". Pilatos disse aos judeus que afirmavam a sua origem através de fornicação: "Isto que dizeis não é verdade, posto que os esponsais foram celebrados, segundo afirmam vossos próprios compatriotas". Então Anás e Caifás disseram a Pilatos: "Todos juntos afirmamos e não cremos que ele tenha nascido de fornicação; estes são prosélitos e seus discípulos". Pilatos chamou Anás e Caifás e disse-lhes:

"Que significa a palavra prosélito?" Eles responderam: "Que nasceram de pais gregos e fizeram-se judeus agora". Ao que contestaram os que afirmavam que Jesus não havia nascido de fornicação (isto é: Lázaro, Astério, Antônio, Tiago, Amnés, Zeras, Samuel, Isaac, Crispo, Agripa e Judas): "Nós não nascemos prosélitos, mas sim somos filhos de judeus e dizemos a verdade, pois encontravam-nos presentes nas bodas de José e de Maria".

Pilatos chamou estes doze que afirmavam não haver Jesus nascido de fornicação e disse-lhes: "Eu os conjuro pela saúde de César, dizei-me, é verdade o que afirmastes, que não nasceu de fornicação?" Eles responderam: "Nós temos uma lei que proíbe jurar, porque é pecado; deixe que estes jurem pela saúde de César que não é verdade o que acabamos de dizer, e seremos réus de morte". Então Pilatos disse a Anás e Caifás: "Nada respondem a isto?" Eles replicaram: "Tu dás crédito a estes doze que afirmam o nascimento legítimo de Jesus; enquanto isso, todos, em massa, estamos bradando que é filho de fornicação, que é feiticeiro e que se chama a si próprio Filho de Deus".

Então Pilatos ordenou que toda a multidão saísse, à excepção dos doze que negavam a origem da fornicação, e ordenou que Jesus fosse separado. Depois lhes disse: "Por que razão querem dar-lhe a morte?" Eles responderam: "Têm inveja dele por curar no Sabat".

Ao que respondeu Pilatos: "E por uma boa obra querem matá-lo?"

E, cheio de ira, saiu do pretório e disse-lhes: "Tomo por testemunha o sol de que não encontro nenhuma culpa neste homem". Os judeus responderam e disseram ao governador:

"Se não fosse um malfeitor, não o haveríamos entregado a ti". E Pilatos disse: "Tomai-o vós e julgai-o segundo vossas leis". Então os judeus disseram a Pilatos: "Não nos é permitido matar ninguém". Ao que Pilatos contestou: "A vós sim Deus proibiu de matar mas, e a mim?"

E, entrando de novo no pretório, chamou Jesus à parte e disse-lhe: "És o rei dos judeus?" Jesus respondeu: "Dizes isto por conta própria ou pelo que os outros te disseram de mim?" Pilatos replicou: "Mas será que também sou por acaso judeus? Teu povo e os pontífices puseram-te em minhas mãos, que fizeste?" Jesus respondeu: "Meu reino não é deste mundo pois, caso contrário, meus servidores teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus; mas o meu reino não é daqui". Então Pilatos disse: "Logo, tu és rei?"

Jesus respondeu: "Tu dizes que eu sou rei; pois para isto nasci e vim ao mundo, para que todo aquele que é da verdade, ouça minha voz". Pilatos disse-lhe: "Que é a verdade?" Jesus respondeu: "A verdade provém do céu". Pilatos disse: "Não há verdade sobre a terra?" E Jesus respondeu a Pilatos: "Estás vendo que os que dizem a verdade são julgados pelos que exercem o poder sobre a terra".

E deixando Jesus no interior do pretório, Pilatos foi até os judeus e lhes disse: "Eu não encontro culpa alguma nele". Os judeus replicaram: "Ele disse: "Eu sou capaz de destruir este templo e reedificá-lo em três dias'." Pilatos disse: "Que templo?" Os judeus responderam: "Aquele edificado por Salomão em quarenta e seis anos, ele diz que vai destruí-lo e reedificá-lo ao final de três dias". Pilatos disse: "Eu sou inocente do sangue deste justo; vós vereis". E os judeus disseram: "Seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos".

Então Pilatos chamou os anciãos, os sacerdotes e os levitas e disse-lhes em segredo:

"Não agi assim, pois nenhuma das vossas acusações merece a morte, já que elas referem-se às curas e à profanação do Sabat". Os anciãos, sacerdotes e levitas responderam: "Se alguém blasfema contra César é ou não digno da morte?" Pilatos disse-lhes: "É digno da morte". Os judeus disseram: "Pois se alguém que blasfema contra César é digno da morte, saiba que este blasfemou contra Deus".

Depois o governador mandou que os judeus saíssem do pretório, e chamando Jesus, disse-lhe: "Que vou fazer contigo?" Jesus respondeu: "Faz como te foi ordenado". Pilatos disse: "E como me foi ordenado?" Jesus respondeu: "Moisés e os profetas falaram sobre a minha morte e sobre a ressurreição". Os judeus e os ouvintes perguntaram então a Pilatos dizendo: "Por que continuas ouvindo essa blasfêmia?" Pilatos respondeu: "Se estas palavras são blasfêmias, prendei-o por blasfêmia, levai-o à vossa sinagoga e julgai-o segundo vossa lei". Os judeus contestaram: "Está escrito em nossa lei que se um homem peca contra outro homem merece receber quarenta açoites menos um; mas diz que se alguém blasfema contra Deus deve ser apedrejado".

Pilatos disse-lhes: "Tomai-o por vossa conta e castigai-o como quiserdes". Os judeus replicaram: "Nós queremos que seja crucificado". Pilatos contestou: "Não merece a crucificação".

Então o governador lançou um olhar ao seu redor sobre a turba de judeus que estava presente e, ao ver que muitos deles choravam, exclamou: "Nem toda a multidão quer que morra". Os anciãos dos judeus disseram: "Por isso viemos todos em massa, para que morra". Pilatos perguntou-lhes: "E por que deverá morrer?" Os judeus responderam:

"Porque chamou-se a si próprio filho de Deus e rei".

Um certo judeu de nome Nicodemus pôs-se diante do governador e disse: "Rogo-te, bondoso como és, permiti-me dizer umas palavras: "Pilatos espondeu: "Fala". E Nicodemus disse: "Tenho falado nestes termos aos anciãos, aos levitas, à multidão inteira de Israel reunida na sinagoga: "Que pretendeis fazer com este homem? Ele opera muitos milagres e prodígios como nenhum outro foi nem será capaz de fazer. Deixai-o em paz e não trameis nada contra ele; se os seus prodígios têm origem divina, permanecerão firmes; porém, se têm origem humana, dissipar-se-ão. Pois também Moisés, quando foi enviado da parte de Deus ao Egito, fez muitos prodígios, previamente assinalados por Deus, na presença do Faraó, rei do Egito. E estavam ali alguns homens a serviço do Faraó, Jamnes e Jambres, os quais operaram, por sua vez, não poucos prodígios como os de Moisés, e os habitantes do Egito tinham Jamnes e Jambres por deuses. Mas como os seus prodígios não provinham de Deus, eles pereceram, bem como os que lhes davam crédito. E agora, deixai livre este homem, pois não é digno de morrer'."

Os judeus disseram então a Nicodemus: "Tu te fizeste discípulo dele e por isso falas em seu favor". Nicodemus disse-lhes: "Mas então também o governador fez-se discípulo dele porque fala em sua defesa? Não o colocou César neste cargo? Os judeus estavam com muita raiva e rangiam os dentes contra Nicodemus. Pilatos disse-lhes: "Por que rangeis os dentes contra ele ao ouvir a verdade?" Os judeus disseram a Nicodemus: "A ti sua verdade e sua parte". Nicodemus disse: "Amém, amém, que assim seja como haveis dito".

Mas um dos judeus adiantou-se e pediu a palavra ao governador. Este lhe disse: "Se queres dizer algo, diz". E o judeus assim falou: "Eu estive durante trinta e oito anos deitado numa liteira, cheio de dores. Quando Jesus veio, muitos dos que estavam endemoninhados e sujeitos a diversas doenças foram curados por ele. Então alguns jovens compadeceram-se de mim e, pegando-me com liteira e tudo, levaram-me até ele. Jesus, ao ver-me, compadeceu-se de mim e disse-me: "Pega tua maca e anda'. Eu peguei minha maca e comecei a andar". Então os judeus disseram a Pilatos: "Pergunta-lhe que dia era quando foi curado". E o interessado disse: "Era Sabat". Os judeus disseram: "Já não te havíamos informado de que curava no Sabat e tirava demónios?"

Outro judeu adiantou-se e disse: "Eu era cego de nascença, ouvia vozes, mas não via ninguém, e, ao ver passar Jesus, gritei bem alto: "Filho de Davi, apiedai-te de mim'. E compadeceu-se de mim, impôs suas mãos sobre os meus olhos e imediatamente recuperei a visão". E outro judeu adiantou-se e disse: "Estava arqueado e endireitou-me com uma palavra". E outro disse: "Havia contraído lepra e ele curou-me com uma palavra".

E certa mulher chamada Berenice (Verónica) começou a gritar de longe, dizendo:

"Encontrando-me doente com hemorragia, toquei a extremidade de seu manto e a hemorragia que eu vinha tendo por doze anos consecutivos, parou". Os judeus disseram:

"Existe um preceito que proíbe apresentar uma mulher como testemunha".

E alguns outros, muitos homens e mulheres gritavam, dizendo: "Este homem é profeta e os demónios submetem-se a ele". Pilatos disse aos que afirmavam isto: "Por que também vossos mestres não se submeteram a ele?" Eles responderam: "Não sabemos". Outros afirmaram que havia ressuscitado Lázaro do sepulcro, defunto já de quarenta dias. Então, cheio de medo, o governador disse à multidão de judeus: "Por que vos empenhais em derramar sangue inocente?"

E depois de chamar Nicodemus e aqueles doze homens que afirmavam a origem limpa de Jesus, disse-lhes: "Que devo fazer, pois está forjando um alvoroço entre o povo?"

Disseram-lhe: "Nós não sabemos; eles verão". Convocou de novo Pilatos a multidão de judeus e disse-lhes: "Sabeis que tenho por costume soltar um prisioneiro durante a festa dos ázimos. Pois bem, está preso e condenado um assassino chamado Barrabás, e tenho também este Jesus que está agora na vossa presença, e em quem não encontro culpa alguma. A quem quereis que solte?" Eles gritaram: "A Barrabás". Pilatos disse-lhes: "Que farei, pois, de Jesus, o chamado Cristo?" Os judeus responderam: "Que seja crucificado!"

E alguns dentre eles disseram: "Não és amigo de César se soltas a este, porque chamou-se a si próprio Filho de Deus e rei; se assim procedes, queres a este por rei e não a César".

Pilatos então, encolerizado, disse aos judeus: "Vossa raça é revoltada por natureza e enfrentais vossos benfeitores". Os judeus disseram: "A quais benfeitores?" Pilatos respondeu: "Vosso Deus tirou-vos do Egipto, livrando-vos de uma cruel escravidão; vos manteve sãos e salvos através do mar bem como através da terra, alimentou-vos com maná no deserto e deu-vos codornas, deu-vos de beber água tirada de uma rocha e deu-vos uma lei, e, depois de tudo isso, encolerizastes vosso Deus, fostes atrás de um bezerro fundido, exasperastes vosso Deus e Ele dispôs-se a exterminar-vos; porém, Moisés intercedeu por vós e não fostes entregues à morte. E agora acusais a mim de odiar o imperador".

E, levantando-se do tribunal, dispôs-se a sair. Mas os judeus começaram a gritar dizendo: "Nós reconhecemos como rei a César e não a Jesus. E ainda mais, os Magos vieram oferecer-lhe dons trazidos do Oriente como para o seu rei; e quando Heródes tomou conhecimento através dessas personagens de que um rei havia nascido, tentou acabar com ele. Mas seu pai José tomou ciência do fato e levou-o juntamente com a mãe, e fugiram todos para o Egipto. E quando Heródes soube disso, exterminou os filhos dos hebreus que haviam nascido em Belém".

Quando Pilatos ouviu estas palavras, temeu, e depois de impor silêncio às turbas, já que estavam gritando, disse-lhes: "Então é este aquele a quem Heródes buscava?" Os judeus responderam: "Sim, é este". Então Pilatos pegou água e lavou suas mãos, de frente para o sol, dizendo: "Sou inocente do sangue deste justo; vós vereis". E novamente os judeus começaram a gritar: "Seus sangue sobre nós e sobre nossos filhos". Então Pilatos mandou que fosse corrido o véu do tribunal onde estava sentado e disse a Jesus: "Teu povo desmentiu-te como rei. Por isso decretei que em primeiro lugar sejas flagelado, de acordo com o antigo costume dos reis piedosos, e que depois sejas dependurado na cruz no horto onde foste aprisionado. E Dimas e Gestas, ambos malfeitores, serão crucificados juntamente contigo".

Assim, Jesus saiu do pretório acompanhado dos dois malfeitores. E, em chegando ao lugar convencionado, despojaram-no de suas vestes, enrolaram-no em um lençol e puseram uma coroa de espinhos ao redor de suas têmporas. Dependuraram os dois malfeitores, de maneira semelhante. Enquanto isso, Jesus dizia: "Pai, perdoai-os, porque não sabem o que fazem". E os soldados repartiram entre si as suas vestes, e todo o povo estava em pé contemplando-o. E os pontífices e também os chefes zombaram dele, dizendo: "Salvou os outros; salve-se, então, a si próprio; se este é o Filho de Deus, que desça da cruz". Os soldados, por sua vez, aproximavam-se dirigindo-lhe escárnios e oferecendo-lhe vinagre misturado com fel, enquanto diziam: "Tu és o rei dos judeus: salva-te a ti mesmo". E depois de proferir a sentença, o governador mandou que na forma de um título fosse escrito em cima da cruz a sua acusação em grego, latim e hebraico, de acordo com o que os judeus haviam dito: "Rei dos Judeus".

E um daqueles ladrões que haviam sido dependurado disse-lhe assim: "Se tu és o Cristo, salva-te a ti mesmo e a nós". Mas Dimas, em resposta, repreendeu-o dizendo: "Tu não temes a Deus, ainda que estejas na mesma condenação? E a nós, certamente, ela no

cabe bem, pois recebemos a recompensa justa pelas nossas obras; mas este não fez nada de mal". E dizia: "Senhor, lembra-te de mim no teu reino". E Jesus disse-lhe: "Em verdade, em verdade te dito que hoje estarás comigo no paraíso".

Era a hora sexta quando as trevas se fecharam sobre a terra até a nona hora, por haver escurecido o sol; e o véu do templo rasgou-se ao meio. Jesus, então, com voz grave, disse:

"Pai, baddach efkid ruel", que significa: "Em tuas mãos entrego o meu espírito". E, assim dizendo, entregou sua alma. O centurião, ao ver o que aconteceu, louvou a Deus dizendo:

"Este homem era justo". E a multidão que assistia ao espectáculo, ao contemplar o acontecido, passou a bater no peito.

O centurião, por sua vez, transmitiu ao governador o ocorrido. Este, ao ouvi-lo, entristeceu-se assim como sua mulher, e ambos passaram todo aquele dia sem comer nem beber. Depois Pilatos fez chamar os judeus e disse-lhes: "Vistes o que se passou?" Mas eles responderam: "Foi um simples eclipse do sol, como de costume".

Enquanto isso, seus conhecidos permaneciam a distância; e as mulheres que o haviam acompanhado desde a Galiléia estavam contemplando tudo isto. Mas havia um homem chamado José, senador, vindo de Arimatéia, que esperava o reino de Deus. Aproximou-se, então, de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Depois foi baixar o cadáver da cruz e envolveu-o num lençol limpo e depositou-o no sepulcro talhado em pedra que ainda não havia sido usado.

Quando os judeus ouviram dizer que José havia reclamado o corpo de Jesus, começaram a procurá-lo, assim como também aqueles que haviam declarado que Jesus não havia nascido de fornicação. Nicodemus e muitos outros que se haviam apresentado diante de Pilatos para dar testemunho das suas boas obras. E, como todos se houvessem escondido, somente Nicodemus apareceu, porque era varão principal entre os judeus.

Assim, Nicodemus disse-lhes: "Como haveis entrado na sinagoga?" Os judeus responderam: "E tu? Como entraste na sinagoga? Posto que és seu cúmplice, seja também sua parte contida no século vindouro". E Nicodemus disse: "Assim seja, assim seja". José, por sua vez, apresentou-se de maneira semelhante e disse-lhes: "Por que haveis ficado apreensivos comigo por ter reclamado o corpo de Jesus? Pois sabei que depositei-o no meu novo sepulcro, depois de havê-lo envolvido num lençol branco, e fiz correr a pedra sobre a entrada da gruta. Mas não vos portastes bem com aquele justo, pois que, não contentes em crucificá-lo, também o atravessastes com uma lança". Os judeus então detiveram José e mandaram que fosse aprisionado até o primeiro dia da semana. Depois disseram-lhe: "Bem sabes que o avançado da hora não nos permite fazer nada contra ti, pois o sábado já está amanhecendo; mas saiba que nem sequer far-se-á o favor de dar-te sepultura, mas sim exporemos teu corpo às aves do céu". José retrucou: "Esta maneira de falar é a do soberbo Golias que injuriou o Deus vivo e o santo Davi. Pois o Senhor disse através do profeta: "A mim corresponde a vingança e eu retribuirei'. E ainda há pouco, aquele que não é circuncidado segundo a carne, mas é circunciso de coração, tomou água, lavou as mãos de frente para o sol e disse: "Sou inocente do sangue deste justo; vós havereis de ver'. Mas vós respondestes a Pilatos: "Seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos'. Agora, então, temo que a ira do Senhor recaia sobre vós e sobre vossos filhos, como dissestes". Ao ouvir essas palavras os judeus sentiram seus corações encherem-se de raiva, e, depois de capturar José, detiveram-no e prenderam-no em uma casa onde não havia nenhuma janela; depois selaram a porta onde José estava preso e alguns guardas permaneceram junto dela.

E no sábado os arquissinagogos, os sacerdotes e os levitas estabeleceram que no dia seguinte todos deveriam encontrar-se na sinagoga. E bem de madrugada a multidão inteira pôs-se a deliberar que tipo de morte haveriam de dar-lhe. E estando o conselho reunido, ordenaram que o fizessem comparecer com grande desonra. E abriram a porta mas não o encontraram. Então o povo ficou fora de si e todos encheram-se de admiração ao encontrar os selos intactos e a chave em poder de Caifás. Com isto, não se atreveram a pôr as mãos sobre aqueles que haviam falado diante de Pilatos em defesa de Jesus.

E enquanto estavam ainda sentados na sinagoga, cheios de admiração pelo caso de José, chegaram alguns dos guardas, aqueles a quem os judeus haviam encomendado a Pilatos a custódia do sepulcro de Jesus, e disseram que não foram seus discípulos que o haviam tirado de lá. E foram prestar contas aos arquissinagogos, aos sacerdotes e aos levitas dizendo-lhes o que aconteceu; isto é, como "sobreveio um terremoto e vimos um anjo que descia do céu, que retirou a pedra da boca da gruta, sentando-se depois sobre ela.

E brilhou como neve e como relâmpago. Com o que nós, cheio de medo, ficamos como mortos. Então ouvimos a voz do anjo que falava às mulheres que se encontravam junto ao sepulcro: "Não temais, pois sei que buscais a Jesus, o que foi crucificado. Não está aqui; ressuscitou como havia dito; vinde, vede o lugar onde jazia o Senhor. E agora ide rapidamente e dizei aos seus discípulos que ressuscitou de entre os mortos e que está na Galiléia'."

Os judeus então disseram: "A quais mulheres falava ele?" Os da guarda responderam:

"Não sabemos quem eram ". Os judeus disseram: "A que horas isto aconteceu?" Os da guarda responderam: "Á meia-noite". Os judeus disseram: "E por que não as detivestes?"

Os da guarda responderam: "Ficamos como mortos pelo medo, não acreditando que poderíamos ver de novo a luz do dia, como iríamos detê-las?" Os judeus disseram: "Deus vive e nós não acreditamos". Os da guarda não responderam: "Vistes tantos sinais naquele homem e não acreditastes? Como ireis dar-nos crédito? E, com razão, haveis jurado pela vida do Senhor, pois Ele também vive". E os da guarda acrescentaram: "Temos ouvido dizer que prendestes aquele que reclamou o corpo de Jesus, selando a porta, e que ao abri-la não o encontrastes. Entregai, pois, José e vos entregaremos Jesus". Os judeus disseram:

"José se foi para a sua cidade". E os da guarda replicaram: "Também Jesus ressuscitou, como ouvimos o anjo, e está na Galiléia".

Ao ouvir estas palavras os judeus sentiram medo e disseram: "Não deixeis que isto se espalhe porque senão todos inclinar-se-ão diante de Jesus". E, convocado o conselho, fizeram um depósito de muito dinheiro e deram-no aos soldados, dizendo: "Dizei: "Enquanto dormíamos, seus discípulos vieram de noite e o levaram'. E se isto chegar aos ouvidos do governador, persuadi-lo-emos e livrá-los-emos de toda a responsabilidade".

Eles pegaram o dinheiro e falaram da maneira que lhes havia sido indicada.

Mas um sacerdote chamado Finees, Adas, o doutor, e Ageu, levita, desceram da Galiléia até Jerusalém e contaram aos arquissinagogos, aos sacerdotes e aos levitas: "Vimos Jesus em companhia de seus discípulos sentado no monte chamado Mamilch, e dizia-lhes:

"Ide pelo mundo e pregai a todas as criaturas; aquele que crer e for baptizado, salvar-se-á; mas aquele que não crer, está condenado. E aqueles que tiverem acreditado, estes sinais os acompanharão: arremessarão demónios em meu nome; falarão em novas línguas; colherão serpentes; e, mesmo que beberem alguma coisa capaz de produzir a morte, não lhes fará dano; imporão suas mãos sobre os enfermos e estes sentir-se-ão bem'. E, quando ainda lhes estava falando, vimos que ia subindo ao céu".

Os anciãos, os sacerdotes e os levitas disseram: "Glorificai e confessai ao Deus de Israel se é que ouvistes e vistes o que acabais de dizer". Os que haviam falado disseram: "O Senhor Deus de nossos pais Abraão, Isaac e Jacob vive, pois que ouvimos isto e o vimos ao ser elevado ao céu". Os anciãos, os sacerdotes e os levitas disseram: "Viestes para prestarnos conta de tudo isto ou para cumprir algum voto feito a Deus?" Então os anciãos, os pontífices e os levitas replicaram: "Se haveis vindo para cumprir um voto a Deus, qual a razão destas histórias mentirosas que haveis contado diante de todo o povo?" Finees o sacerdote, Adass, o doutor, e Ageu, o levita, disseram aos arquissinagogos e levitas: "Se estes fatos que contamos, e dos quais fomos testemunhas oculares, constituem um pecado, aqui nos tendes em vossa presença; fazei conosco o que lhes pareça bom diante de vossos olhos". Então eles pegaram o livro da lei e fizeram-nos jurar que não mencionariam a ninguém aquelas coisas. Depois deram-lhes de comer e de beber e tiraram-nos da cidade, não sem antes haver-lhes dado dinheiro e haver-lhes dado três homens para que os acompanhassem, e que deveriam levá-los até os confins da Galiléia. E foram-se em paz.

E depois que aqueles homens foram para a Galiléia, os pontífices, os arquissinagogos e os anciãos reuniram-se na sinagoga, fechando a porta atrás de si, e demonstrando grande dor, diziam: "Será possível que este portento aconteceu em Israel?" Então Anás e Caifás disseram: "Por que estais tão agitados? Por que chorais? Ou não sabeis que seus discípulos compararam-nos com uma boa quantidade de ouro e deram-lhes instruções para que digam que um anjo do Senhor desceu e removeu a pedra da entrada do sepulcro?" Mas os sacerdotes e anciãos disseram: "Pode ser que os discípulos tenham roubado seu corpo, mas, como sua alma entrou no corpo e está vivendo na Galiléia?" E eles, na impossibilidade de dar-lhes resposta para todas estas coisas, disseram enfim a duras penas: "A nós não nos é permitido acreditar em alguns não circuncidados".

Mas Nicodemus levantou-se e pôs-se em pé diante do conselho, dizendo: "Falais perfeitamente. Não desconheceis, ó povo do Senhor, os varões que desceram da Galiléia, homens de recursos, tementes a Deus, inimigos da avareza, amigos da paz. Pois bem, eles disseram sob juramento que viram Jesus no monte Mamilch em companhia de seus discípulos, que estava ensinando todas as coisas que pudessem ouvir da sua boca e que o viram no momento de ser elevado ao céu. E ninguém perguntou-lhes de que maneira foi elevado. Então como ensinava-nos, estava contido no livro das Sagradas Escrituras que Elias foi elevado ao céu e que Eliseu gritou fortemente, fazendo com que Elias atirasse sua capa sobre o Jordão, e assim Eliseu pôde atravessar o rio e chegar até Jericó. Então os filhos dos profetas saíram ao seu encontro e disseram-lhe: "Eliseu, onde está Elias, teu senhor?' Ele respondeu que havia sido elevado ao céu. E eles disseram a Eliseu: "Será que o espírito não o arrancou e o atirou sobre algum monte? Levamos nossos criados conosco e partamos em sua busca'. E convenceram Eliseu, que foi com eles. E andaram buscando-o

durante três dias inteiros, sem encontrá-lo, pelo que tiveram conhecimento de que havia sido chamado. E agora dai-me atenção: enviemos uma expedição por todos os confins de Israel e vejamos se por ventura Cristo foi chamado por um espírito e foi depois atirado num desses montes". Esta proposição agradou a todos e enviaram uma expedição por todos os confins de Israel em busca de Jesus e não o encontraram. Encontraram foi José de Arimatéia, mas ninguém atreveu-se a detê-lo.

E foram-se a prestar contas aos anciãos e aos sacerdotes e aos levitas, dizendo: "Demos a volta por todos os confins de Israel e não encontramos Jesus, mas encontramos sim José de Arimatéia". Ao ouvir falar de José, os arquissinagogos, os sacerdotes e os levitas encheram-se de alegria, deram glória a Deus e puseram-se a deliberar de que maneira poderiam entrevistar-se com José. E pegaram um rolo de papel e escreveram o seguinte para José: "Que a paz esteja contigo; sabemos que pecamos contra Deus e contra ti. E temos rogado ao Deus de Israel que permita com que venhas ao encontro de teus pais e de teus filhos. Pois sabes que todos enchemo-nos de aflição quando, ao abrir a porta, não o encontramos. E agora nos apercebemos de que havíamos tomado uma determinação perversa contra ti; mas o Senhor veio em tua ajuda e Ele mesmo encarregou-se de dissipar nosso mau propósito, honorável pai José".

E escolheram, entre todo Israel, sete varões amigos de José, os quais José conhecia, e os arquissinagogos, sacerdotes e levitas disseram-lhes: "Olhai, se ao receber nossa carta ele a ler, sabereis que virá até nós em vossa companhia: porém, se não a ler, entendi que está desgostoso connosco, e, depois de dar-lhe um beijo de paz, voltai aqui". Em seguida, abençoaram os emissários e os despediram. Então estes chegaram ao lugar onde estava José, e fazendo-lhe uma reverência, disseram-lhe: "A paz esteja contido". E ele por sua vez disse: "Que a paz esteja convosco e com todo o povo de Israel". Então eles lhe entregaram a carta. José aceitou-a, leu-a, beijou-a e louvou a Deus, dizendo: "Bendito o Senhor Deus, que livrou Israel de derramar sangue inocente, e bendito o Senhor que enviou seu anjo e abrigou-me sob as suas asas". Depois, preparou a mesa e ali comeram, beberam e dormiram.

No dia seguinte levantaram-se muito cedo e fizeram suas orações. Depois, José selou sua mula e pôs-se a caminho acompanhado daqueles homens e foram até a cidade santa de Jerusalém. E o povo em massa saiu ao encontro de José, gritando: "Entra em paz". Ele disse dirigindo-se a todo o povo: "Que a paz esteja convosco". E eles deram-lhe um beijo, prostrando-se em oração juntamente com José. E ficaram todos fora de si por poder contemplá-lo. Nicodemus hospedou-o em sua casa e em sua honra deu uma grande recepção, convidando Anás, Caifás, os anciãos, os sacerdotes e os levitas. E alegraram-se comendo e bebendo em companhia de José; e, depois de entoar hinos, cada qual foi para sua casa. José, porém, permaneceu com Nicodemus.

Mas no dia seguinte, que era sexta-feira, os arquissinagogos, sacerdotes e levitas madrugaram para ir à casa de Nicodemus. Este veio ao seu encontro e disse-lhes: "Que a paz esteja convosco". E eles por sua vez disseram: "Que a paz esteja contigo e com José, com toda a tua casa e com toda a casa de José". Então fê-los entrar em sua casa. O conselho estava todo reunido, e José veio sentar-se entre Anás e Caifás. E ninguém se atreveu a dizer-lhe uma palavra. Então José disse: "A quem obedece aquele que me convocou?" Eles fizeram sinais a Nicodemus para que falasse com José. Ele então abriu sua boca e falou-lhe assim: "Sabes que os veneráveis doutores, assim como os sacerdotes e levitas, desejam saber de ti uma coisa". E José disse: "Perguntai". Então Anás e Caifás pegaram o livro da lei e colocaram José sob juramento dizendo: "Glorifica e confessa a Deus de Israel. Sabei que Achar, ao ser conjurado pelo profeta Jesus, não cometeu perjúrio, mas sim anunciou tudo e não ocultou uma só palavra. Tu, pois, também não oculte de nós nenhuma palavra. E José disse: "Não ocultar-vos-ei uma só palavra". Então eles lhe disseram: "Sentimos uma grande contrariedade quanto pediste o corpo de Jesus e envolveste-o em um lençol limpo e puseste-o no sepulcro. Por isso detivemos-te num recinto onde não havia nenhuma janela.

Deixamos, além disso, as portas trancadas e fechadas a chave e dois guardas ficaram custodiando a prisão onde estavas fechado. Porém, quando fomos abrir, no primeiro dia da semana, não te encontramos e preocupamo-nos ao máximo e foi-se estabelecendo o espanto sobre todo o povo de Deus até ontem. Agora, então, conta-nos o que aconteceu contigo".

E José disse: "Na sexta-feira, à décima hora, encarcerastes-me, e ali permaneci durante o Sabat todo. Mas à meia-noite, enquanto eu estava em pé orando, a casa onde me deixastes fechado ficou suspensa nos quatro ângulos e vi como que um relâmpago de luz diante dos meus olhos. Amedrontei-me, então caí ao chão. Porém, alguém pegou a minha mão e levantou-me do lugar onde estava caído. Senti depois que a água derramava-se sobre mim desde a cabeça até os pés e veio às minhas narinas uma fragrância de bálsamo. E aquela personagem desconhecida enxugou-me o rosto, deu-me um beijo e disse-me: "Não temas, José; abre teus olhos e olha para quem te fala'. Então levantando meus olhos, vi Jesus; mas no meu estremecimento supus que era um fantasma e pus-me a recitar os mandamentos. E ele pôs-se a recitá-los junto comigo. Como sabeis muito bem, se um fantasma vem ao vosso encontro e ouve os mandamentos, foge rapidamente. Vendo, então, que recitava-os juntamente comigo, disse-lhe: "Mestre Elias'. Mas ele disse-me: "Não sou Elias'. Eu então disse: "Quem sois, Senhor?' Ele disse-me: "Eu sou Jesus, aquele cujo o corpo tu pediste a Pilatos e envolveste com um lençol limpo, e puseste um sudário sobre a cabeça, e colocaste em tua gruta nova, e rolaste uma grande pedra à sua entrada'. E eu disse ao que me falava:

"Mostrai-me o lugar onde te coloquei'. E ele levou-me e mostrou-me o lugar onde eu o colocara; nele estavam estendidos o lençol e o sudário que havia servido para seu rosto.

Então reconheci que era Jesus. Depois ele pegou minha mão e deixou-me a portas fechadas dentro da minha casa; em seguida, acompanhou-me até minha cama e disse-me: "Que a paz esteja contigo”. A seguir deu-me um beijo, dizendo-me: "Até que se completem quarenta dias não saias de tua casa; pois eis que vou até a Galiléia ao encontro de meus irmãos'."

Quando os arquissinagogos, sacerdotes e levitas ouviram estas palavras dos lábios de José, ficaram como mortos e caíram ao chão. E jejuaram até a nona hora. Então Nicodemus e José puseram-se a animar Anás e Caifás, os sacerdotes e os levitas, dizendo: "Levantai, ficai em pé e robustecei vossas almas, pois amanhã é o Sabat do Senhor". E com isto levantaram-se, oraram a Deus, comeram, beberam e cada um voltou à sua casa.

No sábado seguinte, nossos doutores reuniram-se em conselho, bem como os sacerdotes e levitas, discutindo entre si e dizendo: "Que será esta cólera que se formou sobre nós? Porque, de nossa parte, conhecemos bem seu pai e sua mãe". Então, Levi o doutor disse: "Conheço seus pais e sei que são tementes a Deus, que não descuidam de seus votos e que três vezes por ano dão seus dízimos. Quando Jesus nasceu, trouxeram-no a este lugar e ofereceram a Deus sacrifícios e holocaustos. E o grande doutor Simeão, ao tomá-lo em seus braços, disse: "Agora despeça o teu servo em paz, Senhor, segundo tua palavra; pois meus olhos viram tua salvação, que preparaste para a face de todos os povos; luz para a revelação dos gentios e glória do teu povo de Israel'. E Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: "Dou-te boas novas com relação a este menino'. Maria disse: "Boas, senhor?' E Simeão respondeu: "Boas; olha, este foi colocado para a queda e ressurreição de muitos em Israel e para seu um sinal de contradição. Tua própria alma será atravessada por uma espada de forma que os pensamentos de muitos fiquem a descoberto'."

Então disseram a Levi o doutor: "Como sabes tu disto?" Ele respondeu: "Não sabeis que aprendi a lei dos seus lábios?" Os do conselho disseram: "Queremos ver teu pai". E fizeram com que o pai de Levi fosse chamado. E, quando o interrogaram, ele respondeu:

"Por que não acreditastes em meu filho? O bem-aventurado e justo Simeão em pessoa ensinou-lhe a lei". E o conselho disse-lhe: "Mestre Levi, é verdade o que disseste?" Ele respondeu: "É verdade". E os arquissinagogos, sacerdotes e levitas disseram entre si: "Eia! Enviemos à Galiléia os três homens que vieram trazer ao nosso conhecimento sua doutrina e sua ascensão, e que nos digam de que maneira viram-no elevar-se". E esta proposição agradou a todos. Enviaram, pois, os três homens que os haviam acompanhado anteriormente até a Galiléia com essa incumbência: "Dizei ao mestre Adas, ao mestre Finees e ao mestre Ageu: "Que a paz esteja convosco e com os que estão em vossa companhia'. Tendo havido uma grande discussão neste conselho, viemos para levar-vos a este lugar santo de Jerusalém".

Puseram-se, pois, os homens a caminho da Galiléia e os encontraram sentados e absortos com o estudo da lei. Deram-lhe um abraço de paz. Então disseram os varões galileus a quem havia ido buscar: "Que a paz esteja convosco". E aqueles disseram de novo: "A que viestes?" Os enviados responderam: "Chama-vos os conselho da santa cidade de Jerusalém". Quando aqueles homens ouviram que eram procurados pelo conselho, fizeram orações a Deus, sentaram-se à mesa com os enviados, comeram, beberam, levantaram-se e puseram-se tranquilamente a caminho de Jerusalém. No dia seguinte, o conselho reuniu-se na sinagoga e os interrogaram dizendo: "É verdade que vistes Jesus sentado no monte Mamilch dando instruções aos seus onze discípulos e que presenciastes sua ascensão?" E os homens responderam desta maneira:

"Da mesma maneira que o vimos ao ser elevado, assim vos contamos".

Então Anás disse: "Separemo-los uns dos outros e vejamos se suas declarações coincidem". E foram separados. Depois, em primeiro lugar, chamaram Adas e lhe disseram:

"Mestre, como contemplaste a ascensão de Jesus?" Adas respondeu: "Enquanto ainda estava sentado no monte Mamilch e dava instruções aos seus discípulos, vimos uma nuvem que cobriu a todos com sua sombra; depois, a mesma nuvem elevou Jesus até o céu, enquanto que os discípulos jaziam com suas faces na terra". Em seguida chamaram a Finees, sacerdote, e perguntaram-lhe também: "Como contemplaste a ascensão de Jesus?"

E ele falou de maneira semelhante. Interrogaram também a Ageu, que respondeu de maneira semelhante. Então ele disse ao conselho: "Está contido na lei de Moisés: "Da boca de dois ou três toda a palavra será firme'." E o mestre Buthem acrescentou: "Está escrito na lei: "E passeava Enoch com Deus, e já não existe, porque Deus levou-o consigo'." Também o mestre Jairo disse: "Também ouvimos falar da morte de Moisés, mas não o vimos, pois está escrito na lei do Senhor: "E Moisés morreu pela palavra do Senhor e ninguém jamais conheceu, até o dia de hoje, seu sepulcro'." E o mestre Levi disse: "E o que significa o testemunho que o mestre Simeão deu quando viu Jesus: "Eis aqui que este está colocado para a queda e ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição'?" E o mestre Isaac disse: "Está escrito na lei: "Eis aqui que eu envio meu mensageiro diante de ti, o qual preceder-te-á para guardar-te em todo o bom caminho, pois meu nome é nele invocado'."

Então Anás e Caifás disseram: "Haveis citado justamente o escrito na lei de Moisés, que ninguém viu a morte de Enoch e que ninguém mencionou a morte de Moisés. Mas Jesus falou a Pilatos, e nós sabemos que o vimos receber bofetadas e cusparadas no rosto; que os soldados cingiram-lhe uma coroa de espinhos; que foi flagelado; que recebeu sentença da parte de Pilatos; que foi crucificado no Calvário em companhia de dois ladrões; que se lhe deu de beber fel e vinagre; que o centurião Longinos abriu seu flanco com uma lança; que José, nosso honorável pai, pediu seu corpo e que, como disse, ressuscitou; que, como dizem os três mestres, viram-no elevar-se ao céu; e, finalmente, que o mestre Levi deu testemunho do que o mestre Simeão disse, e que disse: "Eis aqui este que está colocado para a queda e ressurreição de muitos em Israel e como sinal de contradição'." E todos os doutores disseram em uníssono ao povo inteiro de Israel: "Se esta ira provém do Senhor e é admirável aos nossos olhos, conhecei sem dar margem a dúvidas, ó casa de Israel, que está escrito: "Maldito todo aquele que está preso a um pedaço de madeira'. E outro lugar da escritura menciona: "Deuses que não fizeram o céu e a terra perecerão'." E os sacerdotes e levitas disseram entre si: "Se sua memória perdurar até Sommos (também conhecido pelo nome de Jobel), sabei que o seu domínio será eterno e que fará nascer para si um novo povo". Então os arquissinagogos, sacerdotes e levitas exortaram todo o povo de Israel dizendo: "Maldito aquele que adorar qualquer obra saída de mãos humanas e maldito aquele que adorar as criaturas tendo ao lado o Criador". E o povo em massa respondeu: "Amém, amém".



Depois a multidão entoou um hino ao Senhor desta forma: "Bendito o Senhor, que proporcionou descanso ao povo de Israel de acordo com o que havia prometido; não caiu no vazio nem uma só de todas as boas coisas que disse ao seu servo Moisés. Que siga ao nosso lado o Senhor nosso Deus da mesma maneira que estava do lado dos nossos pais.

Que não nos entregue à perdição para que possamos inclinar nosso coração até Ele, para que possamos seguir todos os seus caminhos e para que possamos praticar os preceitos e critérios que apregoou aos nossos pais. Naquele dia o Senhor será rei sobre toda a terra; não haverá outro ao seu lado; seu nome será unicamente Senhor, nosso rei. Ele nos salvará. Não há semelhante a ti, Senhor; sois grande, Senhor, e grande o teu nome. Cura-nos pela tua virtude e seremos curados; salva-nos, Senhor, e seremos salvos, pois somos tua pequena parte e tua herança. O Senhor não abandonará jamais o seu povo pela magnitude do seu nome, pois começou a fazer de nós o seu povo.

E todos depois, em coro, cantaram o hino e cada qual foi para casa dando graças a Deus, porque aquele dia permanece por todos os séculos dos séculos. Amém.
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